Turma da Mônica: Laços. Dos quadrinhos ao cinema, na percepção de Lu Cafaggi - A construção de personagens femininas.

A turma da Mônica, criação de Maurício de Souza é um quadrinho que acompanha a infância de muitos brasileiros desde 1959, gerando diversas ramificações e intensa produção de novos roteiros, personagens, produtos e inclusive um parque completo. Uma das ramificações mais diversas, e, pode se dizer até experimental é a Graphic MSP (Maurício de Souza produções), uma vertente das histórias de cada personagem criado por Maurício, desenvolvida por quadrinistas proeminentes do mercado brasileiro e editada por Sidney Gusman.

Nessas criações, os autores oferecem uma visão mais pessoal sobre as personagens. Podem ser descritas as histórias de origem, ou sua relação com outras personagens. São  normalmente histórias one-shot, ou seja, ciclos de roteiros fechados em si mesmos e de apenas um volume. Os estilos de desenho são trazidos pelos autores e costumam ser bem diferentes do estilo já consagrado dos estúdios Maurício de Souza. Já existem 23 títulos publicados e mais dois anunciados (em fase de produção).

Turma da Monica: Laços

Turma da Monica: Laços, é um quadrinho de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi uma história que desenvolve aspectos sobre infância, crescimento  e amizade dentro desse universo. Foi premiado pelo HQ Mix , um dos mais importantes prêmios de quadrinhos no Brasil e em 2015 foi lançada a sequência, Turma da Mônica: Lições, devido ao sucesso da primeira e em 2017, Turma da Mônica: Lembranças.

No mesmo ano de lançamento da sequência foi anunciado o filme baseado na história de Laços. O filme seria uma adaptação do roteiro, com pessoas reais (live action), com direção de Daniel Rezende (Bingo: O rei das manhãs, 2017), seu segundo longa metragem. O diretor já trabalhou em outras áreas em filmes como Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e Diários de motocicletas (Walter Salles, 2004) com edição e montagem.

O filme estreou em 27 de junho nos cinemas. A história, baseada nos quadrinhos contém várias homenagens ao universo de Maurício de Sousa, aos próprios autores e pequenos detalhes que pegam os fãs de surpresa. Só quem já leu bastante reconhece alguns “easter eggs”. Um dos detalhes mais envolventes são as falas dos personagens. A história é toda conduzida pela perspectiva das crianças e cria diálogos que parecem transpostos de uma infância saudosa, a trilha sonora contribui para essa atmosfera com direito a canção original de Tiago Iorc . A pesquisa dos personagens e dos detalhes de roteiro condiz diretamente com o trabalho feito pelos autores na criação da história, onde chegaram a pesquisar sobre as primeiras aparições das personagens e o background de cada um de forma bastante aprofundada.

Lu Cafaggi e sua percepção do filme

Convidamos a autora Lu Cafaggi para falar sobre sua percepção sobre o filme. Ela publica quadrinhos desde 2009 e além da graphic MSP ilustrou os títulos Quando Tudo Começou (2015, Autêntica) e O Mundo de dentro de Bruna Vieira (2016, Autêntica), tendo criado histórias autorais, participado de diversos eventos como a Comic Con Experience e o Lady’s Comics e premiada pelo Troféu HQ MIX, juntamente com seu irmão, Vitor Cafaggi.

Existem algumas diferenças entre o  filme e o quadrinho que misturam referências, homenagens e uma atmosfera de Sessão da Tarde, sem a previsibilidade que esta costuma trazer.

“Sei o quanto sou suspeita pra comentar, mas achei o filme incrível. A sensação, ao assisti-lo, foi a de revisitar um lugar querido pra mim e, ao mesmo tempo, a surpresa que é descobrir minha nova coisa favorita no mundo.”

O que você achou do filme? Quais as diferenças dele para o quadrinho?

“O filme conversa super de perto com o quadrinho. Tem enquadramentos e diálogos semelhantes, brinca de esconder algumas homenagens ao universo original do Mauricio de Sousa e também a outras fontes que foram referência pra gente construir a atmosfera da história. E traz algumas diferenças pontuais: traz o personagem Louco, acrescenta informações sobre a situação que envolve o desaparecimento do Floquinho... E diferenças naturais que vêm quando a gente trabalha um mesmo conjunto de coisas (história, personagens, emoções, o espírito da coisa toda...) em linguagens diferentes, que usam ferramentas de expressão diferentes. No fim, temos duas obras diferentes e muito irmãs, que se acrescentam e se respeitam e que convivem com uma obra ainda maior dentro do imaginário de quem lê/assiste Laços, que é toda uma rede de significados que cada um já havia construído dentro de si lendo os quadrinhos da MSP desde a infância, cada um em sua geração.”

Além de Lu Cafaggi, a graphic MSP conta outras autoras publicando (ainda que em menor número) como Cris Eiko (Penadinho - Vida, 2015) , Cris Peter (Astronauta - Magnetar, 2012 como colorista) , Bianca Pinheiro (Mônica - Força, 2016) ,  e Fefê Torquato está trabalhando atualmente no quadrinho que será lançado ainda esse ano, Tina - Respeito, quadrinho todo feito em aquarela.

O trabalho das quadrinistas ainda é, por diversas vezes, invisibilizado dentro do meio, como em outras profissões, por isso a importância do trabalho autoral vai além de receber os créditos e desenvolver desenhos ou histórias, mas também envolve representatividade, se posicionar e se entender como mulher em espaços majoritariamente masculinos.

De uma perspectiva de quadrinista mulher, como foi pra você a construção das personagens femininas e como foi ver essa adaptação no filme:

“Acho que, em Laços, as personagens femininas que ocupam um tempo maior de construção dentro da história seriam a Mônica, a Magali e a Dona Cebola. E como são personagens que meu irmão e eu já conhecíamos bem, porque lemos Turma da Mônica a vida toda, a etapa de pensar a respeito delas dentro da história não foi muito trabalhosa.

Achei linda a construção das personagens femininas. Gostaria de ter visto um pouco mais da Mônica e da Magali como a dupla de amigas que elas são também, e não apenas dentro da dinâmica dos quatro amigos, mas isso era uma expectativa bem pessoal, porque foi como meu irmão e eu escolhemos trabalhar nos quadrinhos.

A personagem feminina que mais me encantou foi a Dona Cebola, a Fafá Renó é um espetáculo.

Vou me concentrar em escrever mais sobre as cenas de flashback que foram as cenas das quais pensei o layout e desenhei. Eu gostei da possibilidade de trabalhar com elas em momentos que exigiam essa combinação especial de vulnerabilidade + força da parte delas (Dona Cebola, mãe de primeira viagem, cuidando de um Cebolinha febril; Magali dividindo a coisa à qual ela mais se apega no mundo - comida - com uma Mônica tão tímida que usa uma carranca como defesa) e, em poucas páginas, poder trabalhar com esses desafios delas de formas diferentes. E o filme traz isso também. Dentro de outras situações e soluções, mas é sobre isso também. E as atuações geniais da Giulia Benite, da Laura Rauseo e da Fafá Rennó trouxeram camadas que meu desenho ainda precisa comer muito feijão pra alcançar. Mas, voltando à relação vulnerabilidade + força, acho que é uma combinação muito sensível de se trabalhar com personagens femininas. Porque acho que todo mundo se sente frágil quando está vulnerável, mas existe o outro lado da moeda também. Acho que pra nós, mulheres, por termos aprendido a nos ver sob o rótulo de "sexo frágil" por muitas gerações, a necessidade de provar nossa força (pra nós mesmas e para um mundo machista até o osso) tá ainda num momento sensível, meio que em carne viva. Eu, por exemplo, já conheço um bocado sobre minha própria força, já sei o quanto dela vem justamente de me deixar ser vulnerável dentro de algumas situações e, ainda assim, me vejo, em vários momentos, desesperada pra provar que sou forte (ou que sou qualquer outro adjetivo que, pro olhar sexista, parece não caber num corpo de mulher). Me vejo desesperada pra dar uma resposta desaforada, desesperada pra me mostrar fechada emocionalmente. E se ainda tem desespero aí, é porque ainda tem muito pra ser resolvido, né. Então, sempre que posso, tento misturar esses significados, para eu mesma desamarrar alguns conceitos dentro da minha cabeça. E, se acontecer de eu esbarrar com mais alguém que estiver precisando se desconstruir da mesma forma pelo caminho, melhor ainda.”

Qual personagem do Maurício você gostaria de ver sobre essa perspectiva de uma quadrinista mulher?

“Acho que seria muito legal ver o Do Contra por esse ângulo. Ele é um personagem que gosta de ir contra o que as convenções esperam dele, então acho que dá pra criar umas situações maravilhosas com isso (salientando coisas que não estão funcionando nas nossas relações, salientando que existem nuances também). E acho que a relação entre a a Magali e a tia dela, tia Nena, pode ser trabalhada de um jeito bem bonito e delicado numa história que dê esse tempo pra elas também.”

O processo criativo envolve, além de técnica, referências imagéticas, e muitas vezes, a adaptação para filme do livro ou quadrinho pode influenciar a forma de pensar do autor sobre a história, ou a construção do imaginário do leitor.

Como o filme te influenciou imageticamente? E na forma de pensar a história?

“Eu não entendo nada de cinema, mas vamos lá, hahah. O filme tem as pessoas de verdade, a trilha sonora, a presença real daqueles cenários... a gente recebe essas expressões com um impacto diferente do que o quê o quadrinho nos traz (a expressividade do desenho pessoal do artista, as páginas como painéis, a possibilidade de ler no seu ritmo...). Não é melhor, nem pior, né, disso a gente já tá sabendo. É só diferente mesmo, o que é muito legal. E isso me deu algumas novas leituras pra Turma, sim, especialmente em relação aos sentimentos dos personagens. São atores de verdade trabalhando ali, então dá pra ver no olho deles umas pistas do quê que significam pra eles, em vida real, a possibilidade de perda, o que é cuidar um do outro, quais as delicadezas que dão sentido pras nossas relações, etc. Isso extrapola os elementos que são apenas convenientes pra caminhar com a história e acrescenta muito pro mistério que é um personagem como o universo inteiro que ele é.”

Você tem vontade de ver outros quadrinhos virarem filme depois de acompanhar esse processo?

“Como foi uma coisa que me deixou muito feliz como autora, sim, hahah, quero que todos os autores do mundo vivam uma experiência assim. Mas, como leitora, não sinto exatamente uma vontade de ver os meus favoritos adaptados pro cinema, estou satisfeita com eles exatamente do jeito que eles são. Mesmo porque o desenho do artista é uma das coisas que mais mexem comigo num quadrinho. Acho que tenho mais curiosidade em conhecer desdobramentos mais soltos (e não releituras da história em si) de algumas obras. Por exemplo, acho que seria o máximo se alguém compusesse uma trilha super tensa para Alho Poró (2017, Independente)  da Bianca Pinheiro, usando os sons da casa e tudo o mais. Não acho que exista a necessidade de alguém fazer isso para "completar", ou mastigar, ou "melhorar" a história (que acho que é como algumas pessoas podem entender as adaptações?), a Bianca já construiu tudo que era necessário dentro da narrativa dela. Seria só pela diversão da coisa mesmo ou pra ir mantendo a obra original sempre viva na memória coletiva.”

E a possibilidade de continuação de Laços no cinema?

“Acho que ainda não há uma certeza, sempre depende de como vai ser a recepção do público e da crítica pro primeiro filme. Meu irmão e eu adoraríamos ver Lições e Lembranças no cinema e, no que precisarem, podem contar conosco.”

Escrito por:

Annima Mattos

Escreve e desenha quadrinhos. Formada em artes plásticas pela UnB, já trabalhou com arte-educação e atualmente com ilustração e design. Pesquisa gênero e representação nos quadrinhos e publica de forma independente.
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