Cinema e educação: Como um professor mudou a vida de dezenas de alunos com a arte

Quando penso em histórias poderosas sobre professores que mudaram a trajetória de seus alunos, dois filmes vêm á minha cabeça. Um deles é o clássico de 1967, Ao Mestre com Carinho, clássico com Sidney Portier onde ele, que interpreta um professor negro, quebra as barreiras racistas estabelecidas na época. O outro, um de meus favoritos, é A Sociedade dos Poetas Mortos. No longa, Robbie Williams é um mestre que busca inspirar seus alunos a almejar coisas na vida além do status quo. Além destas duas, agora, outra história vêm á mim como prova do impacto pessoal e social que um professor motivado pode fazer na vida de alguém.

O professor Luiz Roberto de Carlo, docente na escola estadual Francisco Ferreira Lopes, em Mogi das Cruzes, ensina arte há 25 anos. Estudou publicidade e propaganda e, mais tarde, pedagogia, na Universidade de Mogi das Cruzes. Ao ser questionado sobre sua relação com o cinema, ele fala com nostalgia sobre a infância, quando freqüentava o cinema com seus pais, e sobre como levou o amor á sétima arte para a vida. Estimulado pelo projeto Curta-Mogi, desenvolvido pela diretoria de ensino da cidade, o professor decidiu criar a produtora fictícia Zoetrope, em parceria com a escola já citada, para estimular produções para o festival.

Ele explica que, no início, não sabiam exatamente o que estavam fazendo. “ O primeiro curta da Zoetrope, In the Hallway, foi exibido em 2016 e nós mesmos não botávamos muita fé no projeto. Mas tudo mudou quando, no dia da premiação, fomos contemplados com cinco prêmios, sendo melhor curta de terror, melhor fotografia, direção de arte, edição e roteiro. Desde então, começamos a nos especializar e fazer a coisa mais profissional possível.”

Os jovens talentos

Para o professor Luiz, o objetivo da Zoetrope é revelar os talentos escondidos na cidade. E isto é exatamente o que tem acontecido, de acordo com relatos dos próprios alunos. Rafael Rocha, de 18 anos, é editor e já foi premiado pelo curta Blackout. Ele conta que sempre teve vontade de se aprofundar na área, e foi com o convite do professor que pôde desenvolver a habilidade. "Talvez sem o projeto eu não teria a oportunidade de aprender tanto sobre essa área. Hoje,  trabalho como freelancer de edição e consigo tirar um dinheiro disso.”

Hemelly Malta, de 16 anos, também encontrou na iniciativa do professor a oportunidade para desenvolver um interesse que já tinha.  “Este projeto fez com que eu enxergasse potencial em mim e me interessasse ainda mais por cinema e teatro. Daqui para frente, a meta é participar de mais curtas e alcançar o que mais quero, que é ser uma ótima atriz.”

Até o momento, são três os curtas lançados pela Zoetrope. Blackout, In The Hallway e o espetacular Amazing Stories tem o envolvimento dos alunos em todas as etapas, de acordo com o professor Luís. Ele explica que a equipe da Zoetrope conta, atualmente, com cerca de 25 membros, entre cenógrafos, roteiristas, atores, figurantes e editores. “Cada um exerce a função que preferir, e, no caso dos atores, é feito um pequeno teste para ver quem se sai melhor com o papel.”

A liberdade de escolher sua função no set faz com que os alunos tenham experiência em varias áreas em específico e testem todos os segmentos, até se identificarem com algum setor. Alguns dos alunos até mesmo optam por permanecer em várias funções ao mesmo tempo, como é o caso do estudante João Pedro Domingues, de 19 anos, que se descreve como “quebra-galho”.

O jovem relata que aceitou o convite do professor, a princípio, para ganhar nota. “Antes,  eu não queria nem estudar, ficava andando pela escola, aí um certo dia os meninos da minha sala me chamaram falando que o professor Luiz queria conversar comigo. "Pensei que tinha feito algo de errado”, conta. “Quando cheguei lá, ele perguntou se era eu que tinha um estabilizador, já que andava de skate e costumava filmar as manobras.”

João, que se formou na escola há dois anos, diz que muitas coisas mudaram desde que passou a integrar a Zoetrope. “Além das amizades que fiz, descobri que sou bom em improvisar materiais para as gravações. E também aprendi a ter mais comprometimento com os trabalhos.” João também conta que escreveu o próximo filme a ser lançado pela produtora e se diz otimista com o resultado.

As dificuldades

O projeto não possui apoiadores financeiros. O professor Luiz conta que é ele quem cobre despesas como aluguel de figurino, objetos cênicos, transporte e alimentação. Os alunos ajudam como podem: maquiagem, adereços e locações, mas nunca com dinheiro.

O professor explica que uma das maiores dificuldades ainda é lidar com a inconsistência de jovens e adolescentes. “Muitas vezes eles chegam muito afoitos, mas da mesma maneira depois vão desistindo do projeto por inúmeras dificuldades. Por causa disso, hoje em dia sempre deixo uma carta na manga. Na falta de um, já tenho outro em vista.”

Para Luiz, no set, seus alunos são como amigos com interesses em comum. Ele também sente grande responsabilidade pelos envolvidos no projeto, já que grandes mudanças foram causadas nos jovens por conta do projeto. “Até então,  tínhamos apenas brincado de cinema, e agora vejo que esta brincadeira se torna uma marca na alma de cada um. No depoimento deles, vejo como este processo foi importante na escolha do seu futuro.”

Os alunos também não poupam adjetivos ao descreverem o impacto causado pela iniciativa. “Descobri que, mesmo tendo dislexia, sou boa com argumentos. Eu até andei ajudando um pouco o professor nas falas das pessoas, e vi que se me esforçar bastante, consigo fazer tudo que quero”, relata Gabriela Karina, de 16 anos. “Me tornei uma pessoa mais séria e responsável, pois trabalhar com pessoas realmente é muito difícil. Tudo isso fez parte do meu amadurecimento”, completa Giovanna Real, de 18 anos.

Todos os alunos são unânimes em descrever a dedicação e criatividade do professor Luiz em set, destacando suas boas ideias e a facilidade de trabalhar com ele. Alguns vão ainda mais longe ao descrever a importância do professor em suas vidas. “Tenho uma amizade forte com o professor e estamos sempre nos ajudando. Para mim, ele é como um pai.”

Um trabalho para a vida

Para o futuro, os alunos esperam se envolver cada vez mais com o cinema, desenvolver suas habilidades e evoluírem como profissionais. Se depender do professor Luiz, não faltarão oportunidades para que isso aconteça. O curta metragem DRINK, que abordará como temática principal o alcoolismo, já está em fase de produção. “A meta é sempre melhorar as produções, com a experiência de alguns que estão desde o começo, ajudando os que estão chegando a cada ano. Para o grupo, este ano o Brasil é o limite”, finaliza.

A Zoetrope Filmes é a prova do impacto positivo que a arte pode fazer na vida de um jovem, e faz com que eu pense o que poderia ser, do futuro, se tivéssemos mais professores assim.

As produções da Zoetrope estão disponíveis em seu canal no Youtube

Escrito por:

Rebeca Gonçalves

Rebeca Crespo tem 22 anos e é produtora, fotógrafa e roteirista no coletivo mais legal do mundo, o Friends Group. É apaixonada por literatura gótica, filmes blaxcpotation e por fazer perguntas demais.
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