Do sonho à realização: o cinema de guerrilha e sua força

Como uma produtora do interior de São Paulo conquistou o mundo

Uma experiência hipnótica. É assim que Rafael Zanesco,@rafazanesco diretor, produtor, roteirista e criador da Hipnóticos Filmes descreve sua experiência com o cinema. Esta, diz ele, é a razão pela qual decidiu chamar assim sua produtora, a Hipnóticos Filmes @hipnoticosfilmes. Desde 2014, a pequena produtora vem chamando atenção de cineastas em solo nacional e internacional.“Durante a hipnose, a pessoa precisa estar olhando para um ponto fixo, em um ambiente confortável, para, assim, despertar a mente pelo subconsciente. É assim que eu enxergo a experiência de ir ao cinema. Você precisa estar focado e sem distrações, para, assim, absorver e despertar emoções que não são necessariamente suas.”

O conteúdo apresentado ao longo dos anos não deixa dúvidas do quanto esta premissa é levada a sério pelos integrantes. Passando pelos gênero fantasia, mistério e terror psicológico, todas as produções tem a característica de prender o espectador na cadeira.

Formado atualmente por uma equipe de quatro pessoas, o grupo se conheceu enquanto cursava cinema, em 2009. Rafael, Renata Abreu @renataabreu e Andrea Fergo @deiafergo costumavam fazer, juntos, trabalhos na faculdade. Porém, após a formatura, em 2012, o grupo se dispersou. “Ficamos um tempo sem produzir, até que o Rafa voltou á atividade em 2014, ao gravar o ‘Namoro Virtual’”, diz Renata.

 “Cinema sempre foi a minha paixão”, completa Rafael. “Eu sentia a necessidade de voltar a produzir o cinema que fazia na faculdade. Então, de todos os meus roteiros, escolhi o mais o fácil de se filmar. Dois namorados conversando pela webcam.”

Auxiliado inicialmente por Andrea e Felipe Rico – que não faz mais parte da produtora -, Rafael aceitou o desafio de filmar a história. “Juntei dois amigos da época da faculdade. A Luciana Ultramari, atriz do filme, cedeu sua casa para que gente pudesse gravar. A experiência foi incrível.”

Lançado em 2015, um ano depois de sua gravação, “Namoro Virtual” chamou atenção dos festivais. Foi seleção oficial no "AM EgyptFilm Festival", no Egito,em 2017, e seleção oficial na segunda edição da "Mostra Pequi de Audiovisual do Norte de Minas em Montes Claros", Brasil, 2017.

Os dois curtas seguintes alcançaram resultados ainda mais impressionantes. “Dissociativa”, lançado em 2015, foi semi-finalista no festival “Miami Epic Festival”, nos Estados Unidos,obteve duas indicações de melhor filme no "Festival de Cinema Online",no Brasil foi seleção oficial no "AM EgyptFilm Festival" e do “Festival Aos Berros de Cinema e Música Independentes”. “O Último Andar” foi semi-finalista no festival "CON-TEMPORARY Art Observatorium", Itália, semi-finalista no "Miami Epic Festival", seleção oficial do Festival Boca do Inferno, e  seleção oficial do “Festival Aos Berros de Cinema e Música Independentes”.

A internet como ferramenta de expansão

“Depois que ‘Dissociativa’ foi lançado, o Rafael começou a publicar em grupos para divulgar a produtora. O filme me chamou atenção, já que eu sempre fui apaixonado por terror”, diz Rodrigo Cardoso @digorodricard, integrante desde 2015. “Surgiu a oportunidade de me envolver com a produtora com o ‘Maldita Lembrança’.”

Considerado por todos o filme mais desafiador já feito por eles, o curta, que reverencia a cultura japonesa, marcou presença em festivais na Espanha, Reino Unido, Rússia, Estados Unidos, Austrália e Egito.

“Era uma equipe muito grande em um set muito pequeno”, comenta Rodrigo. “Produzir uma casa oriental em uma locação ‘brazuca’ deu muito trabalho”, brinca Renata.

As referências do grupo variam muito entre o cinema clássico e o contemporâneo. “O perfeccionismo do Kubrick sempre me chamou a atenção”, diz Andrea. “Spielberg, Hitchcock, são dois diretores que sempre pesaram no drama. No Brasil, sou fã dos textos do Nelson Rodrigues.”  “David Lynch consegue trazer incômodo, medo, angústia, beleza nos seus planos. Para mim, representa perfeição”, diz Renata. “O cinema de Karim Ainouz é puro deleite”, ela reverencia. No campo da literatura, Stephen King, que é influência recorrente para os integrantes da Hipnóticos. “Sydney Sheldon também é referência no que se refere a boas personagens femininas.”, pontua Rafael. “Rafael Montes e Flávio Assunção são minhas grandes inspirações no terror.”, finaliza Rodrigo.

Todos os quatro integrantes já produziram, roteirizaram e dirigiram filmes dentro da produtora, que  não recebe apoio financeiro ou cultural. Entretanto, a equipe conta com a ajuda de outras pequenas produtoras. “Escolhemos um roteiro que tenha uma idéia interessante e viável. Temos uma grade de parceiros que sempre nos ajudam, acreditando no trabalho. Seja em locações, pós-produção ou trilha sonora. Temos sorte de conhecermos pessoas muito dispostas em nosso caminho”, diz Rodrigo.

Os quatro dizem que a Hipnóticos recebe inúmeras propostas de roteiro para produzir. O premiado “Sombras”, dirigido por Rodrigo e vencedor do "Premiodel Público Online", na Espanha, foi cedido por Samuel Sajo. “Nós gostaríamos de produzir tudo o que chega nas nossas mãos, mas, sendo uma produtora independente, é complicado. A galera acha que a Hipnóticos é uma produtora do mercado mesmo, que contrata.”, diz Renata. “Até mesmo currículos chegam em nossas mãos. Em um deles, o rapaz falava até francês”, comenta Rafael.

Cinema de gênero e além

As produções de mistério e suspense sem dúvida são o grande chamariz da Hipnóticos, mas a produtora vai muito além do terror. Lançado em Maio deste ano, o curta-metragem “Antes de Mais um Dia” é um filme que aborda questões como depressão e suicídio. Na trama, Mari (Ariadne Mezzetti) tenta lidar com a família fragmentada que ainda não se recuperou de uma recente tragédia. Andrea, que atuou como produtora executiva, conta como foi a experiência: “ Creio que a maior dificuldade foi criar veracidade no texto. No terror, existe a liberdade de criar um universo absurdo. No drama, é preciso criar um universo realista, senão as pessoas não embarcam.” Renata, a diretora e roteirista do filme, ressalta que as maiores dificuldades técnicas foram locomover a equipe, visto que quase todos vinham de São Paulo e a locação principal ficava em Mogi. “E também, em nossa terceira diária, 60% do que era para ter sido feito não foi. Mas nós conseguimos contornar todas as dificuldades e foi uma experiência muito boa. Esse filme tem a mão de todo mundo, é muito coletivo.”

Rodrigo completa “O maior desafio na produção, sem dúvida, foi  conseguir terminar todos os planos numa última diária da casa que estávamos gravando. Tínhamos pouquíssimo tempo e muitos planos. Foi uma baita correria, mas conseguimos.”

Em termos artísticos, Renata relata que, devido á sensibilidade do tema, era preciso ter tato na direção. “Eu gosto de contar histórias com propósito. Suicídio e depressão são assuntos muito sérios e que estão aí, mas as pessoas ignoram. É necessário que se fale sobre isso. Colocar debaixo do tapete é muito pior.”

Ainda sobre os diferentes temas abordados pela produtora, a Hipnóticos é a responsável pelo documentário “Suzuki: Música com Alegria”, que conta a história de como a professora de violino Shinobu Saito, com uma metodologia diferenciada, ensina crianças e adultos.

A diretora do documentário,Lyanne Kosaka, conheceu a senhora, moradora de Campinas, e achou que a história dela merecia ser contada. “Quando a Lyanne me mostrou uma entrevista feita pela Globo sobre o método Suzuki, eu acabei me apaixonando”, conta Rafael. “Esta metodologia preza a família, o amor. Crianças de 4, 5 anos tocam violino com perfeição graças a isso. Eu disse para a Lyanne que aquilo merecia um documentário.”

O futuro

A produtora busca cada vez mais expandir seus horizontes. São muitos os projetos citados quando perguntados sobre o futuro da Hipnóticos. “Eu amo musicais e adoraria fazer um com uma temática de terror”, diz Andrea. Para Renata, os projetos incluem cinema de realismo fantástico e filmes de horror que explorem outras culturas, como é o caso de “Maldita Lembrança”. “Principalmente a cultura nórdica”, ela diz. Todos são unânimes ao expressar o desejo de fazer o primeiro longa, explorando todos os gêneros possíveis. “Nós ainda temos muito o que mostrar”, pontua Rodrigo.

Rafael finaliza deixando uma mensagem para os aspirantes á cinema: “O pontapé inicial é pegar e fazer. A pessoa só precisa começar. Escolha uma idéia que você consiga fazer com seu celular e faça. Você só não pode deixar seu sonho morrer.”

Gostou de saber sobre a Hipnóticos e quer conhecer mais? O canal deles no Youtube tem todas as produções até 2018,e você pode acompanhar nas redes sociais para saber sobre as próximas novidades.

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Escrito por:

Rebeca Gonçalves

Rebeca Crespo tem 22 anos e é produtora, fotógrafa e roteirista no coletivo mais legal do mundo, o Friends Group. É apaixonada por literatura gótica, filmes blaxcpotation e por fazer perguntas demais.
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