O Cinema Novo de Patrícia Lobo

A arte independente como reflexão da sociedade.

O cinema de Patrícia Lobo é autoral em sua essência, a cineasta formada em comunicação social e pós-graduada em sociologia pela PUC/SP faz um cinema que dialoga muito com o momento social do Brasil de hoje em dia. Não é à toa, ela é uma artista que está muito ligada no que está acontecendo com nosso país e as influências disso soam em cada frame dos seus trabalhos. Em seu primeiro longa-metragem um dos temas principais desse nosso bate-papo, a cineasta discute temas como sociedade, violência contra-mulheres, previdência social e uma critica a forma de trabalho.

Foto: Patrícia Lobo por Nina Belloni

Patrícia que começou sua carreira no teatro seguindo os passos de grandes nomes como Mário Bortolotto e Cacá Rosset, a cineasta fazia produção da peça deles. E foi fazendo teatro que a diretora ganhou experiência e bagagem para ingressar no mundo do cinema. Ali começou a trabalhar com o diretor e roteirista Edu Felistoque quando decidiu criar a produtora pLobo Produções para realizar trabalhos que levassem a sua marca.

De 2014 pra cá Lobo dirigiu quatro curtas-metragens “20 anos, Orquídea”, em 2014, “Um Bom Lugar Para se Sentir Invisível”, de 2015, “Não Trocaria Minha Mãe Por Nada Neste Mundo”, de 2017 e o ainda inédito “O Palhaço, deserto” de 2018, que aliás é o título do seu primeiro longa metragem. A diretora e roteirista é uma das grandes expoentes do nosso cinema independente brasileiro com uma linguagem própria faz um cinema autoral com muita personalidade tocando em assuntos complexos e difíceis, trabalhando com temas urbanos e focada nas complexidades do ser humano nos tempos atuais.

Uma das características desta cineasta independente é que ao invés do concorridos editais públicos para financiamento das obras ela prefere ela mesmo ou financiar ou buscar parceiros para isto. Ela explica: “Apresento a proposta para as pessoas e vejo o interesse, elas precisam ficar encantadas com o projeto”. Lobo esclarece que chegou a ter um projeto para um longa aprovado em edital, mas que não conseguiu captar. A cineasta ainda reforça que é uma diretora autoral e que por isso não abre mão de sua liberdade artística. Ela ainda faz uma crítica aos editais governamentais e afirma que pelo menos 80% do recurso é destinado para “uma velha guarda de cineastas” e por isso prefere ter a sua própria produtora e de certa forma ter uma independência.

Para ela, que é autora de dois livros e trabalhou no teatro com diretores do quilate de Cacá Rosset e Mario Bortolotto, literatura e teatro são fundamentais na sua maneira de fazer cinema. Ela lembra do seu irmão Daniel, quatro anos mais velho, que lia muito e a influenciou quando eram mais jovens “tínhamos uma biblioteca em casa maravilhosa”, afirma. Mas mesmo com a influência do teatro e da literatura o seu texto sempre foi “mais cinematográfico”, como pode ser percebido em seus dois livros, como ela mesmo afirma.

Making Of "O palhaço, Deserto" - Foto: Vítor Campanario 

Lobo vê com muito bons olhos a entrada das minorias, como mulheres, gays, negros, nordestinos, no mundo do cinema hoje em dia. Ela diz que nas regiões do Norte e Nordeste do Brasil tem muita gente talentosa, mas que falta recurso e oportunidade para realizar os trabalhos. “O cinema de Pernambuco é ótimo, fazem com pouco orçamento, mas fazem bem, porque tem narrativa”. Para ela ter dinheiro nem sempre significa realizar um bom produto, “cansei de ver filme milionário e vazio”, critica. Na opinião da cineasta os filmes precisam ter narrativa e a parte plástica e estética fica com a publicidade.

Em relação às mulheres no cinema ela diz que mesmo hoje em dia tendo muito mais, ela acha que o acesso deveria ser muito maior, mas entende que aos pouco isto está melhorando, e não apenas na função de diretora, mas em outras também como: diretoria de fotografia, diretora de arte, trilha sonora, editoras e principalmente nas produções, que é algo que a mulher fazia e ainda faz muito bem.

Making Of "O palhaço, Deserto" - Foto: Vítor Campanario 

Suas principais influências são o cinema francês com os diretores François Truffaut e Agnès Varda, que não é francesa, mas se fez na França, além do Alain Resnais, que dirigiu a sua atriz preferida, Emanuelle Riva, no clássico “Hiroshima, meu amor”. Do cinema brasileiro ela admira os diretores Glauber Rocha e o Rogério Sganzerla. “Este pessoal saiu da caixa, não faziam esse cinema plástico, eles iam além e isso é importante para mim”, afirma.

Em relação ao seu primeiro longa metragem “O Palhaço, Deserto” ela resume dizendo que de maneira geral conta a história de um palhaço vivendo o seu primeiro dia de aposentadoria. Lobo conta que durante o processo do filme as pessoas envolvidas perguntavam e tinham a curiosidade de “por que um palhaço?”. Ela mesmo responde: “porque tem uma licença poética, o palhaço nunca se aposenta, ele é um tirador de sarro, contracorrente, contra cultura, ele é totalmente contra o sistema, contra os modos operandi da vida social”.

O gancho maior para a realização deste longa foi a Reforma da Previdência “um assunto importante que envolve todos os cidadãos brasileiros sendo tomada por meia dúzia de pessoas”. Para ela o Brasil tem muitos problemas, mas o maior não é o previdenciário. Para a cineasta uma Reforma Política é mais importante que a Reforma Previdenciária.

Externas com o ator Paulo Jordão - Foto: Vitor Campanario

Para os jovens cineastas ela dá a seguinte dica: “a experiência é o fazer, você não vai ser absolutamente nada se você não fazer, o mundo ideal do cinema, teatro e literatura não existe, então tem que começar do primeiro”. Ela reforça que as vezes a pessoa precisa passar anos trabalhando para dar certo, talvez não dê no primeiro, mas pode dar no quarto, quinto trabalho. Ela dá como exemplo o cineasta francês François Ozon, que começou a se destacar nos anos 2000, mas que já trabalhava desde a década de 1980.

Do cinema atual ela elogia e recomenda o filme “Cafarnaum”, da atriz Nadine Labaki, que estava em cartaz até recentemente em São Paulo, e que concorreu aos Oscar de melhor filme estrangeiro. E dos clássicos tudo que vier da França ou da Rússia, principalmente se for do diretor Andrei Tarkovsky, que ela gosta muito, mesmo não tendo nada dele em seu cinema.

Ela conclui que o seu longa-metragem está em processo de finalização e que deve chegar aos cinemas brasileiros em 2020, já que primeiramente será exibido no exterior. Para quem ficou curioso e quiser conhecer o trabalho da cineasta Patrícia Lobo é só acessar o seu canal o Youtube e assistir aos seus 3 curtas já finalizados e concluídos, em julho ela lança “O Palhaço, Deserto”, que como já dissemos leva o nome também do seu primeiro longa metragem. Fica a dica.

Escrito por:

Guilherme Ferraro

Guilherme Ferraro iniciou sua carreira como estagiário de produção do filme Garotas do ABC de Carlos Reichenbach em 2002, hoje trabalha como produtor de cinema e é autodidata, onde já participou da produção de filmes como Califórnia(2015) da Marina Person, O Animal Cordial (2017) de Gabriela Amaral Almeida entre outros. Em 2016 e 2017 escreveu artigos sobre cinema e série de Tv para o site Formiga Elétrica em 2018 juntou-se ao time do Blog Action News para falar sobre cinemas e séries desse gênero tão desprezado e agora faz parte do time de redatores do Freak Market.
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