Um olhar sobre o Pós Terror, o novo velho gênero

Em agosto de 2017, o  jornalista do The Guardian, Stevie Rose, escreveu sobre uma nova tendência do cinema de horror a partir do filme Ao cair da noite. Nesse artigo ele dizia que essa nova leva de filmes que fugiam dos clichês obrigatórios do gênero e tratavam de temas mais profundos e metafísicos marcavam uma nova era do terror, e por isso os chamou de Post-Horror, ou seja, Pós-Terror em tradução livre.

Desde então uma grande discussão do gênero vem acontecendo entre os críticos, afinal todos os movimentos “pós-alguma coisa” tendem a renegarem por completo sua origem. Foi assim com o pós impressionismo na arte, pós punk na música, entre outros movimentos. A grande questão é: o pós terror é mesmo a reenveção do cinema de terror?

O pós-terror já existe há muito tempo, só não tinha esse nome

Filmes de terror que sabem tratar de temas profundos, emocionais e até inquietações sociais já existem há mais tempo do que Steve Rose cita em seu artigo. O já considerado clássico O Bebê de Rosemary foi lançado em 1968 e O iluminado em plenos anos 80. Ambos do século passado já promoviam uma desconstrução do gênero terror.

Mas o que O Bebê de Rosemary e Herediário têm em comum? É simples! O já conhecido Terror Psicológico toma outra forma com esses dois filmes. Diferente dos tradicionais, esses dois não se utilizam de monstros literais, jumpcuts e picos musicais para assustar. Como um bom suspense, eles deixam o espectador tenso e como um bom terror tratam de temas que aterrorizam o público.

A diferença é que em 68 o público mais supersticioso já levava sua carga emocional para o cinema e um drama psicológico se tornou completamente aterrorizante. Além disso, poucos deram a merecida atenção para a narrativa subentendida no filme: Rosemary como uma mulher subjugada na sociedade.

O Pós-Terror contemporâneo

Ainda que com ótimos representantes no séculos passado, foi recentemente que o Pós-terror ganhou forma e nome. É comum ver o termo sendo usado por diversos jornalistas. Ainda que tenha enfrentado relutância, Steve pareceu acertar em seu artigo, mas o público ainda parece não simpatizar com o subgênero.

Em 2015, A Bruxa foi vendido como um filme de terror tradicional. Seu trailer contava com jumpscares (aqueles cortes rápido que junto com a música fazem o público pular da cadeira), trilha sonora pesada e um tema clássico do gênero: bruxas. Acontece que, logo após suas primeiras sessões no cinema, o filme frustrou o público, que dizia ter presenciado o “pior filme de terror de todos os tempos”. Qualidade cinematográfica a parte, o filme realmente não entregou o que prometia. Até tinha uma bruxa na floresta mas não passava de takes curtos.

Enquanto os jornalistas ainda discutem o termo, o marketing cinematográfico não sabe muito bem o que fazer com esse “novo” subgênero. Afinal se tem monstro (seja qual for a representação desse monstro) é terror. Mas e quando o monstro é psicológico ou quando o terror depende da bagagem do público para acontecer?

Esse é o caso de Ao cair da noite. O filme é um suspense pós apocalíptico que se passa em sua maioria dentro de uma casa escura. A ideia de monstro está lá, mas esse não é o foco do filme. Nele os medos do próprio diretor e roteirista são recriados em suas personagens.

O longa foi sucesso de crítica entre jornalistas especializados, mas, mais uma vez, o público não se sentiu convencido.

Então é filme cult?

Se tem um termo que eu não aguento mais entre críticos é o tal do “filme cult”, também conhecido como “filme cabeça” ou ainda “filme de gente chata”. Traduções a parte, muitos acreditam que o pós-terror não é um subgênero para o grande público. Não foi feito para esgotar ingressos, e parece que é assim que as salas de cinema brasileiras entendem.

Hereditário mesmo, por exemplo, do diretor Ari Aster, teve uma estreia discreta. Nada de trailer na TV ou vídeos do Youtube. O buzz aconteceu entre a mídia especializada e o público mais interessado. Poucas salas exibiram o longa e as que exibiram tinham os horários mais aleatórios possível.  Acontece que Hereditário é um bom equilíbrio de terror e pós-terror. O filme dispensa o naturalismo, colocando logo no começo seus personagens em uma casa de bonecas (metafórica e literalmente falando). Ao longo da história, temos fantasmas, magia negra e demônios, mas, diferente do tradicional, tudo aparece em momentos pontuais e na maior parte o público fica suspenso no drama familiar dos protagonistas, que às vezes beira o completo absurdo.

Não é preciso nenhum grande conhecimento especializado em cinema para aproveitar Hereditário. A trama não é complexa, a narrativa é clássica e tudo o que você espera de um filme de terror está lá. Talvez não da maneira que o grande público espera, mas está.

Assim como esse filme, o Pós-terror está preso entre o saudosismo e o puro entretenimento, entre análises sociais e sustos gratuitos. O subgênero simplesmente trabalha de maneira diferente com as velhas fórmulas sem deixar de lado o respeito ao gênero.

Um novo gênero definitivo ou moda passageira?

O gênero terror, mais que qualquer outro, sofre com os modismos de época. Quando o recém falecido George Romero acordou os mortos no cinema em 1968, muitos outros filmes de Zumbi surgiram (algo parecido aconteceu com The Walking Dead). Ainda antes, Drácula trouxe os vampiros à moda, não diferente de Crepúsculo e todos os materiais audiovisuais de vampiros e lobisomens que o acompanharam no cinema e na TV.

Seria o pós-terror uma moda passageira? Chegaremos à um momento onde ninguém mais vai aguentar ver metáforas sociais encarnadas em monstros fictícios? Ou seria realmente um gênero definitivo, um novo jeito de contar histórias? Impossível responder agora. Muito se falou dos Zumbis de Romero em 68, mas só agora temos a verdadeira visão da relevância de seu trabalho para a indústria. Quem sabe daqui 20 anos não estaremos lembrando de A Bruxa com saudosismo.

Escrito por:

Yara Pedroso

Formada em Rádio e TV, pós graduada em design e fascinada pela contracultura na moda, música, cinema e televisão. Transfiro esse fascínio para todos os meus trabalhos, seja no cinema guerrilha, nas produções independentes de moda, nos meus textos e até no meu estilo de vida.
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