Thunderbird, o cinéfilo

Luiz Fernando Duarte, ou simplesmente Thunderbird, está no imaginário de uma geração como o cara malucão que, com seu tom de voz característico, colocou o rosto em diversos programas de TV na década de 1990. É difícil lembrar da finada MTV Brasil e não relacionar a emissora a um dos seus personagens mais marcantes que esteve à frente de programas como o CEP, Contos do Thunder e o VJ por um Dia.

Thunder também é conhecido por seu lado músico, que vem bem antes das aparições na TV. Há três décadas é o líder do Devotos de Nossa Senhora Aparecida e durante muito tempo foi figurinha carimbada do underground paulistano. O que talvez muita gente não saiba é que Luiz Thunderbird é um aficionado por cinema. E da união das paixões por rock e filmes nasceu o projeto Tarântulas e Tarantinos.

Inicialmente o grupo foi formado com a intenção de tocar canções que fizeram parte das trilhas sonoras de filmes do diretor Quentin Tarantino, mas recentemente estão trabalhando em músicas próprias e com o nome apenas de Tarântulas. Na conversa que teve com o Freak Market, na entrada de um boteco no bairro de Pinheiros, Thunder, por mais que tenha negado, se mostrou um profundo conhecedor da sétima arte.

Durante a entrevista, o músico falou da sua admiração por diretores como Woody Allen, Stanley Kubrick e, claro, Quentin Tarantino. Thunder lembrou também dos longínquos anos 80, quando foi o responsável pela criação de um cineclube em uma universidade do ABC Paulista. Na conversa, Thunder lamentou a quase extinção dos cinemas de bairro e a dificuldade de se fazer filmes de alta qualidade no Brasil.

Abaixo você confere como foi essa conversa.

Como nasceu a ideia do Tarântulas & Tarantinos? E qual a diferença para o projeto Tarântulas, voltado apenas para músicas autorais?
Tem os dois projetos. Quando a pessoa quer um show especial com as trilhas do Tarantino, a gente faz o Tarântulas & Tarantinos. A relação com o Tarantino nasceu nos anos 90. Eu assisti Cães de Aluguel e falei “esse cara é louco” e na sequência veio Pulp Fiction e falei “esse cara é louco”. E aí me apaixonei por ele.

E qual o melhor filme dele?
Eu considero que Pulp Fiction ainda seja o melhor filme pela narrativa, pelo ressurgimento do John Travolta, figurinos, trilha sonora...O filme é foda. Eu sempre assisto e sempre me surpreendo. Eu não consigo achar nenhum filme do Tarantino ruim.

Mas se fosse para escolher os melhores?

Pulp Fiction em primeiro, Kill Bill 1 e 2 seriam o segundo, mas Bastardos Inglórios é foda, Cães de Aluguel é foda, Jango é incrível. Eu acho que ele tentou dar um passo para o cinemão com os Oito Odiados e eu achei um filme um pouco chato. Fui na pré-estreia e lembro que ficar três horas dentro do cinema foi uma coisa meio chata. Ele se enrolou um pouco no roteiro. Parece com Cães de Aluguel porque ele juntou um monte de caras se machucando no set e parece com Jango por conta da questão racial. O começo do filme é maravilhoso, com aquela fotografia e a trilha do Morricone, mas acho que ele errou a mão, só isso. Ele pode errar. Todo mundo erra.

Você tem uma banda que toca as trilhas dos filmes do Tarantinos. De todos esses filmes, qual tem a melhor trilha?

Pulp Fiction e Kill Bill. Kill Bill 2 é mais cinema e o primeiro é mais trilha. No nosso repertório tem muito mais música da primeira parte de Kill Bill. À Prova de Morte é um filme-videoclipe, ele fez umas sequências de ação, porque ele queria reverenciar esse gênero, pegou trilhas sonoras pops como Jeepster e fez uns videoclipes. E é maravilhoso, cara!

Onde começou essa sua relação com o cinema?

Vem de muito tempo. Meu irmão me levou pela primeira vez ao cinema, isso eu acho que em 1968, para assistir Help Me, no Cine Lins, no Ipiranga, onde hoje funciona uma igreja. A maioria dos cinemas de rua virou igreja. Engraçado que na década de 70 a gente tinha a sensação que todas as igrejas estavam virando Grupo Sérgio e nos anos 90 as lojas do Grupo Sérgio voltaram a ser igrejas.

E faz muita falta hoje em dia ter cinema de bairro?

Muita falta. Ir para shopping para ver um filme é insuportável. Passar por aquelas lojas, aqueles labirintos do capitalismo, a gente não tem mais cinema de rua. Tem lá o Belas Artes, tem um cinema aqui em Pinheiros e outro no Itaim, mas é cinema de resistência, onde muitas vezes só passam filmes de arte, o que é muito raro. Geralmente você tem que se indispor a ir no shopping center que tem oito filmes, metade é dublado e a outra metade ou é do Daniel Filho ou é aqueles super-heróis malditos, enganadores, fascínoras e caretas.

Mas voltando a tua relação com o cinema...

Minha relação com cinema foi progredindo nos anos 70 com bastante parcimônia,  depois que eu me formei na faculdade. Eu me formei em 1982 e tinha uma sala de exibição na faculdade que era muito pouco usada. Quando eu meu formei, pensei: “Puta que pariu, merda! Me formei em odontologia, e agora? Não aproveitei a energia do campus”. Aí tive a ideia de abrir um cineclube para continuar no campus e passei a frequentar a faculdade, já como formado, mas com a desculpa de ser do cineclube. Projetávamos um filme por semana e a nossa estreia foi com O Bandido da Luz Vermelha. Eu ficava com um megafone pela faculdade divulgando a sessão e chegou no dia da estreia e não tinha ninguém. Peguei o megafone novamente e sai chamando todo mundo de ignorante, de imbecil e mandando todas elas irem ao cinema para terem o mínimo de cultura. No final tivemos 15 pessoas assistindo ao filme e mesmo assim a gente continuou durante alguns meses com esse cineclube. Foi um desculpa para me manter na faculdade, mas que me aproximou muito do cinema nacional. Eu ia até a Boca do Lixo para pegar os filmes e ali foi um contato mais pessoal. Comecei a me interessar mais pela história do cinema. Nos anos 80, a gente teve a sorte de ter o Cineclube Bexiga, o Cineclube do Teatro Municipal de Santo André, tinha o Centro Cultural Rebouças, nesses lugares a gente via filmes do neoexpressionismo alemão e isso foi importante para compreender o cinema como algo revolucionário. Era um prazer ir ao cinema tanto para conhecer a história como para conhecer o cinema alternativo.

Existe um filme ruim desse período?

Eu lembro quando saiu De Volta Para o Futuro e eu achei aquele filme uma bosta. E continuo achando ele uma bosta (risos). A maioria dessas sequências eu acho uma merda. Podem me julgar e condenar. Eu lembro que assistir o primeiro Star Wars e falei: “Ah, tá. Tudo bem”, mas depois não assistir mais nenhum porque eu acho muito chato.

Você já pensou em produzir algo para o cinema?

Eu já escrevi um roteiro, mas nunca fui adiante com isso. Cinema no Brasil é muito complicado. Eu vi isso quando participei da filmagem de Luz nas Trevas, que é a continuação do Bandido da Luz Vermelha, um roteiro original do Rogério Sganzerla. Ele me chamou para participar e eu era o repórter que soltava o bandido. Eu curti para caralho, mas eu vi a complexidade que é rodar um filme. Os recursos sempre estão nas mãos da Globo Filmes para aqueles filmes chulezentos do Daniel Filho, aquelas coisas horrorosas. Mas eu estou feliz porque uma música autoral do Tarântulas entrou na trilha sonora do Escaravelho do Diabo, que é um livro que marcou a minha adolescência.

O que você consome do cinema que é feito hoje em dia?

Dos caras que estão mais hypados, eu tenho uma fascinação pelo Wes Anderson, que é uma coisa que eu espero não perder como perdi pelo Tim Burton. Os primeiros filmes do Burton eu achava muito legais. Edward Mãos de Tesoura é legal e Ed Wood é tão sensacional que eu decorei os diálogos. Em lembro que quando fui dispensado da MTV, em 1996, eu pegava um trecho que o Martin Landau, que o faz o papel do Bela Lugosi, em que ele fala “eu fui desprezado, a indústria faz isso, te mastiga, te engole e te joga fora”. Eu gravei esse trecho e fiquei colocando na secretária eletrônica do diretor geral da MTV. Eu tive essa fascinação pelo Tim Burton, mas passou logo porque ele ficou chato. Para substituir o lugar dele veio o Wes Anderson. Comecei a ver os filmes do cara e acho espetaculares, espero que ele não caia na mesma maré. Também gosto muito dos irmãos Cohen, eles são fodas.

O que mais te prende em um filme?

Fotografia, roteiro, elenco, trilha. Eu consigo ver tudo isso, não que eu seja um especialista nisso, mas eu assisto muitos filmes e acabo aprendendo a avaliar algumas coisas, mesmo que por alto.

Você é adepto a novas plataformas de se consumir cinema?

Eu sou um velho e como velho que sou tenho dificuldade de ir ao shopping center. Isso dificultou muito a minha frequência no cinema. Primeiro: cinema é caro. Então além de você ter que pagar R$ 60 pelo ingresso, tem que pagar pelo estacionamento, muitos dos shoppings também não aceitam que o cara vá de bicicleta. Tudo isso dificultou muito a vida de quem gosta da telona. Eventualmente eu me dou um presente. Tomo uma água batizada e vou ver um filme que eu estou muito a fim de assistir. Ultimamente tenho feito uso dos serviços on demand, tanto pra rever algumas coisas, como para ver novas produções. Isso facilitou muito a minha vida. O ser humano sempre quer ficar na caverna, eu adoro ficar em casa, mas o telão é insubstituível.

Vamos começar a fazer as famosas listas. Quais são seis três diretores preferidos?

Stanley Kubric, Woody Allen e o terceiro é segredo (risos). Lista é uma merda, as pessoas adoram fazer um monte. Ler listas é uma merda pois você vai discordar o tempo todo. Mas o Kubric é foda. Eu assisto 2001, Uma Odisseia no Espaço uma vez por semestre.

Continuando, os seus dez filmes favoritos?

2001, Uma Odisseia no Espaço
Doutor Fantástico
Pulp Fiction
Viagem a Darjeeling
Aguirre, A Cólera dos Deuses
Bandido da Luz Vermelha
A Mulher de Todos (“Todo mundo tem que ver esse filme”)
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar
Apocalipse Now   

Aproveitamos a conversa e pedimos para o Thunder fazer mais uma lista. Desta vez sobre as 10 músicas ou trilhas de cinema preferidas dele. O resultado está na playlist abaixo.

Fotos: Murilo Yamanaka / Freak Market

Escrito por:

Gil Luiz Mendes

Gil Luiz Mendes, jornalista, 32 anos, viveu boa parte da vida no Recife e hoje mistura a sua loucura com a de São Paulo. Tem passagens pelas rádios Jornal do Commercio, CBN ,Central3 e tem textos publicados no IG e na Carta Capital. É skatista e músico quando dá tempo.
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