A minha Síndrome do Pânico na quarentena

Seu corpo congela, o medo invade sua respiração, seus músculos, sua cabeça. A vontade é de gritar, chorar, ao mesmo tempo que se esforça para respirar, mas o desejo mesmo é de sufocar de vez, de desmaiar, de se machucar. Você só quer deixar de sentir, ou sentir qualquer outra dor que não essa sem explicação. É assim que eu descrevo a minha síndrome do pânico, um medo maior do que o da morte, que te faz desejar morrer.

Meus músculos se encolhem, meus nervos repuxam, eu tremo de maneira que não consigo destacar meu remédio da cartela, tomar água exige muito esforço e mesmo assim eu a derrubo. Quem está perto sofre junto, sem poder fazer nada além de esperar e a espera é longa, já durou 3 horas entre crises intermitentes. Já parei no hospital algumas vezes, em uma delas desmaiei por falta de ar.

DSC_0201-Editar
Fotografia: Yara Oliveira

Sem preparo enfermeiros e médicos ignoram meu histórico “Está tudo normal” eles dizem “Ela consegue sentar direito e respirar, é só se acalmar”. Agora tudo piora “Será que estou inventando?” “Eu juro que estou me esforçando para passar, eu só quero respirar!”.

Essa é minha realidade há quase um ano, o medo de ter medo me assombra, tudo parece ser um gatilho, em certo momento você deixa de confiar em sí, começa a achar que está enlouquecendo. Quando a síndrome do pânico me dá uma folga, a ansiedade generalizada está lá, para me lembrar que em qualquer momento algo de muito ruim pode acontecer. E aconteceu!

Quarentena, pandemia, uma das pessoas que eu mais confiava nos últimos tempos acabou não aguentando minha realidade. Lá vamos nós aos velhos questionamentos humanos “O problema sou eu? Será que sou tão ruim assim? E se eu tivesse feito diferente?”. Questionamentos comuns, mas quando se tem ansiedade, esses questionamentos são fantasmas prontos para te engolir e quando se tem síndrome do pânico eles te engolem mesmo.

a3d1e59a-5f87-4e14-8036-09bcdbce9659
Fotografia: Yara Oliveira

Mais de 2 meses em isolamento, conto com grandes amigos que sempre estiveram comigo, a sensação é de estar atrapalhando, especialmente quando você percebe a preocupação quando te lembram diariamente de tomar os remédio e até mesmo escondem objetos cortantes.

A ansiedade me prende num looping, parece que estou há um milhão de passos atrás de onde deveria estar, parece que todos os problemas são insolucionáveis e pedir ajuda DE NOVO fica cada vez mais difícil. “Você faria o mesmo por eles” é o que se pensa, mas o fato é que você não deseja que eles precisem da sua ajuda por um problema assim.

Antes os gatilhos eram como fantasmas e poucas pessoas reconheciam e me entendiam, agora todas parecem compartilhar da ansiedade, não a clínica, mas essa ansiedade geral que também machuca. O medo afetou todo mundo, imagina a mim?

Há meses me medico para conviver com o medo, antes ele era só meu, antes ele era invisível. Mas agora tenho medos palpáveis. O que será do meu emprego? E do meu apartamento? E aquele amigo desempregado, como ajudar? E a minha mãe, conseguiu o auxílio? Quando vou poder ver minha irmã? Isso tudo somado a ansiedade pré existente.

A vontade é de fechar tudo, deixar a luz acesa, porque o escuro também assusta. Se enterrar nas cobertas, entrar num silêncio espacial, onde não há razões para temer. Mas ainda assim sei que o medo estará no meu corpo e a qualquer momento meus músculos vão retrair, meu coração e minha respiração ficarão acelerados, e mais uma vez estarei em crise, dessa vez sem ninguém pra me ouvir.

23519222_1538518622908350_7591163025754942607_n
Fotografia: Yara Oliveira

Os pensamentos suicidas se fortalecem, existem dias que a exaustão da existência parece estar te ganhando. As dores no corpo causadas pela crise te fazem não querer levantar e você considera não tomar mais remédios, ou toma-los de uma só vez. Nesses dias ligo desesperada para o meu melhor amigo, estou consciente que faz parte da minha doença e ele pode me ajudar. Parece reconfortante saber que alguém está lá para te entender, ainda que eu gaste metade da ligação dizendo “Eu juro que não estou inventando pra chamar a atenção”.

DSC_0119
Fotografia: Yara Oliveira

É óbvio que as pessoas próximas e que acompanham meu quadro há muito tempo, sabem que não estou inventando uma crise, mas sempre peço desculpas por elas. Às vezes preferia estar inventando para poder escolher quando parar, infelizmente não é assim.

A quarentena só me deixou ainda mais consciente do que é ter uma doença psiquiátrica e do quão real ela é. Como se eu pudesse ver todas as minhas angústias dentro dos repetidos cômodos da casa, assim como elas estão na minha cabeça.

Caso você se identifique com esse texto, busque ajuda. Existem muitos psicólogos atendendo de graça.

Caso seja algo mais extremo, o CVV pode ser uma boa escolha.

Por favor, ainda que você queira muito, NÃO FIQUE SOZINHO.

Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
Popular em Cultura