Futuro sem rosto - Reações criativas às tecnologias de reconhecimento facial

Estamos vivendo na era do 'capital de dados'. Aplicativos e aparelhos digitais coletam nossos dados pessoais, muito sutilmente, a todo momento. Como artistas e ativistas tem achado formas de driblar a vigilância que se impõe violentamente como 'novo' formato de sociedade.

O PANORAMA

Olhe ao seu redor. Quantas câmeras estão apontadas para você neste exato momento? Olhe novamente e procure saber quantas estão escondidas e armazenando seu comportamento sem muita explicação à respeito. Guy Debord (Sociedade do Espetáculo, 1967), George Orwell (1949), Michel Foulcalt (Vigiar e Punir, 1975) ou a série Black Mirror (produção mais próxima da cultura popular e profundamente alinhada com os conceitos desses escritores), são bons ''exemplos'' de futuros distópicos que a nossa sociedade poderia estar sujeita. Foucault foi mais à fundo ao analisar de fato como as sociedades se constroem embasadas em modelos de vigilância e punição.

            Acontece que esses ''conceitos'' estão muito vivos e presentes no nosso comportamento contemporâneo, onde aparelhos nos vigiam 24/7 e muitos desses dispositivos de vigilância nem sequer estão visíveis. Em 2018, a Linha 4 do metrô de São Paulo foi motivo de polêmica ao instalar em algumas estações, paineis digitais com tecnologia de reconhecimento facial. Qualquer um que passasse em frente ao 'brinquedo' do tamanho das portas de proteção estava sujeito a ter seu ''mapa comportamental'' computado para fins não esclarecidos. Ações foram movidas contra a empresa, mas o desfecho ficou nebuloso, podendo portanto, que o aparato esteja funcionando sem que nenhuma pessoa sequer possa ter controle da segurança de seus dados e da própria face.

            Mas não precisamos ir longe para falar do uso de dados pessoais como ''moeda publicitária''. Aplicativos que criam imagens editadas ou conexões entre redes sociais também estão coletando seus dados pessoais sem quaisquer avisos sobre o uso posterior desse imenso banco de dados.

A AÇÃO

Incomodados com a ''venda'' de informações pessoais sem nenhuma possibilidade de recusa, jovens artistas e ativistas digitais começaram a propor ideias e movimentos que tem a intenção de ''driblar'' ou dificultar essa extração involuntária de informações pessoais, incluindo a própria imagem.

            O site CV Dazzle oferece um acervo de pesquisa e ''inspirações'' de looks anti-reconhecimento. A proposta é exatamente criar um atrativo estético atribuído à função principal: manter-se seguro perto de câmeras, telefones e mecanismos de reconhecimento facial.             Em 2016, em uma das edições do RedBull Basement, a engenheira elétrica Sara Lana desenvolveu um capacete com sensores acoplados, e saiu pela cidade de São Paulo pedalando. O dispositivo detecta câmeras de vigilância, muitas delas escondidas ou ''falsas'' e monta um mapa onde é possível numerar quantos aparelhos estão instalados em cada ponto percorrido. Com estas informações é possível criar ''Pontos Cegos'' (nome do projeto), ou seja, rotas que não possuem aparelhos de vigilância instalados, estando assim, supostamente livre de olhares não humanos.

Em 2013, a artista multimídia Jillian Mayer publicou um vídeo no youtube (abaixo) onde ensina, através de um tutorial, como se esconder de câmeras usando apenas tintas e fitas no rosto, desfigurando o rosto no intuito de manter-se irreconhecível em frente à câmeras e dispositivos de armazenamento de imagens. O vídeo foi replicado (como paródia provavelmente) por outros videomakers, mas a questão foi levada adiante e alguns sites replicaram a ideia no cotidiano. Como seria viver sem rosto? Ou com inúmeras possibilidades de rostos?

Capa do vídeo

Alguns coletivos em Paris começaram a organizar festas rave, tematizadas com a segurança digital. Mas faz sentido tratar de um assunto tão sério num contexto tão descontraído como uma festa? No Brasil, algo semelhante acontece na CryptoRave, evento anual que promove diversos eventos em pról da proteção de dados e tudo isso alternado com festas animadíssimas. Começamos a descobrir que segurança digital não é assunto só de hackers e nerds.

Mais recentemente, a China adotou um sistema de ''nota'' aos cidadãos. Um complexo sistema mapeia as ações das pessoas nas ruas, aumentando ou diminuindo a numeração de acordo com a ''qualidade'' das suas atitudes. Essa nota pode impedir que você consiga permissão para viajar, por exemplo.

O FUTURO

Com exceção do experimento feito pelo jornalista Robinson Meyer, nenhuma dessas alternativas foi testada de fato, nem aderida socialmente como ferramenta de proteção pessoal. Mas num cenário que se assemelha cada vez mais às narrativas distópicas descritas no século passado, é crucial que comecemos a pensar em soluções criativas que consigam dar conta do nível de invasão que as tecnologias conseguiram atribuir em nossas vidas. Será que no futuro não poderemos sair de casa sem cobrir o rosto? O próprio espetáculo social vai se voltar contra si mesmo e virar um teatro de sombras? Assim como muitas dessas questões não tem resposta, não podemos ficar de braços cruzados enquanto verdadeiras enciclopédias são arquivadas com informações tão precisas sobre nossos corpos. Andy Warhol profetizou que ''no futuro, todos teriam 15 minutos de fama'', porém até onde a exposição é aceitável quando é protagonizada pelo outro?

Se você se inspirou em alguma ideia de como se proteger de todo esse Big Brother, ouça a playlist e aproveita pra contar pra gente no instagram!

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Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo
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