Girl Power: A discriminação no mundo geek tenta (e falha) ofuscar o cosplay feminino

Faz muito tempo que a cultura pop deixou de ser “coisa de nerd”. As bilheterias de filmes de herói, por exemplo, mostram que não é mais um grupo em especifico que consome este tipo de conteúdo. A última edição da Comic Con Experience, realizada em São Paulo, reuniu um total de 262 mil pessoas. Deste número, 45% eram mulheres. Pelo quarto ano consecutivo, as mulheres também são a maioria entre gamers no Brasil, de acordo com a pesquisa do Sioux Group em parceria com outras empresas. Uma das maiores manifestações do aumento do interesse deste tipo de público por animes, quadrinhos e filmes, é o cosplay – ato de se caracterizar como personagens da cultura pop.  Desde sua popularização, em meados dos anos 90, o cosplay vem sendo uma forma de arte cada vez mais fomentada. Artistas plásticos, costureiros e designers são apenas alguns dos profissionais que se dedicam, especificamente, á este nicho de mercado.

O Brasil como referência mundial de cosplay

Quando o assunto é cosplay, é comum associarmos a palavra imediatamente ao Japão. Porém, a origem desta prática se deu nos EUA, nos anos 30. O americano Forrest J. Ackerman, aficionado por ficção cientifica, deu inicio a este costume quando apareceu na feira Worldcon vestido com uma roupa baseada no filme Things to Come. No ano seguinte, o evento contou com várias outras pessoas fantasiadas de seus personagens favoritos, e, apenas anos depois, o japonês Nobuyuki Takahashi popularizou o termo, após visitar a feira e se encantar com os cosplayers.

No Brasil, a prática só se tornou popular nos anos 90, com o MangáCon, realizado pela Abrademi. A atual presidente da instituição, Cristiane Sato, foi a primeira pessoa no país a utilizar um cosplay em evento, do personagem Mu de Áries (Cavaleiros do Zodíaco). A roupa foi confeccionada após consulta com carnavalescos  da escola de samba Vai-Vai, famosos por criarem fantasias chamativas e de qualidade.

O Brasil foi o primeiro país a se consagrar tricampeão mundial de cosplay pelo World Cosplay Summit, o concurso mundial de cosplay que reúne artistas do mundo inteiro.

Apesar de os números serem incisivos quanto ao claro interesse do público feminino no universo nerd, na prática, ainda existe muita discriminação, assédio e exclusão.  A cosplayer Yas Ferreira é fã de animes e mangás e há 4 anos se apaixonou pela arte do cosplay. É ela mesma quem estiliza suas perucas e faz seus acessórios. Apesar de confessar a dificuldade em encontrar materiais de boa qualidade no Brasil, as dificuldades que enfrentam são muito maiores do que esta.

 “Uma vez, enquanto vestida da personagem Morgiana, um cara saiu gritando no meio do evento, dizendo que eu era namorada dele e precisava pisar nele, ficar com ele. Muitas pessoas não entendem que o cosplay não é um convite, que você faz porque gosta e acha bonito, e não para agradar terceiros. Ultimamente, tenho até evitado usar fantasias que exponham meu corpo.”

Yas, que trabalha em uma hamburgueria de temática geek e organiza jogos de RPG, conta que tem muita dificuldade em atrair garotas para as mesas. “Elas querem jogar, mas não com jogadores homens, pois são sempre julgadas por suas decisões, excluídas por eles. A minha saída foi formar uma mesa só com mulheres.”

Yas conta sempre se sentir pressionada a saber tudo sobre o personagem que está vestindo. “Como eu trabalho em um ambiente composto e frequentado por pessoas nerds, é muito comum ouvir algum questionário, do tipo ‘Fala aí quem é o vizinho preferido do Batman’. Eu já vi muitas garotas sofrendo repressão por escolherem um cosplay que não conhecem a fundo, que escolheram apenas pelo design, e não tem nada de errado nisso.”

Outra artista que enfrenta problemas muito além da escassez de materiais no Brasil é Valentina Carmona, ou Tina, como é conhecida no universo do cosplay. Em comum com Yas, além da habilidade de produzir a maioria de seus acessórios, ela tem as situações de questionamento. “Toda vez que visto algum personagem de videogame, preciso provar que o conheço”, ela comenta.

Tina, que se apaixonou pela cultura pop desde cedo e usa o cosplay como forma de homenagear seus personagens favoritos, conta que ás vezes se sente desanimada pelos comentários das pessoas. “Sinto que o pessoal tem aquele pensamento de que o cosplay é concorrência. Na maioria das vezes, quando tem cosplays do mesmo personagem em algum evento, vem alguém e fala ‘o de fulano tá bem melhor que o teu’.”

O assédio moral e físico não se restringe apenas á eventos. Larissa Mota, cosplayer e dubladora no canal Voice Makers, conta que já ouviu comentários desrespeitosos de alguns fãs.

“O sexismo pode acabar afastando o publico feminino do meio geek porque você se sente menosprezada pelo simples fato de ser mulher. Já cheguei a escutar comentários embaraçosos a respeito da minha posição no canal, que eu não tinha talento e precisei transar com os meninos para estar ali.”

Larissa também diz preferir se afastar de plataformas como jogos online, onde as pessoas podem interagir livremente. “Eu evito de estar em um ambiente onde pessoas que não conheço possam falar comigo, me sinto exposta, mais aberta a ser hostilizada e assediada.”

O Cosplay Positivo

Contrário a onda de discriminação e preconceito no cosplay, vêm o cospositivismo. O termo, ainda novo,busca promover a igualdade e o respeito entre os praticantes da modalidade. A artista Patrícia Nórica explica:

“No cospositivismo, nós ajudamos todos a se aceitarem e respeitarem, falamos sobre respeito com os cosplayers, afinal somos seres humanos também,possuímos nossas limitações.”

Patrícia, que pratica o cosplay desde 2011, conta que costumava encontrar dificuldades na escolha dos personagens que queria representar. “Antes eu me limitava bastante , até pela questão de ser negra e não existir muitos personagens. Ou por pensar na questão física também. Hoje em dia, se eu gostar eu faço.

Patrícia relata que, assim como Larissa, já foi desrespeitada em redes sociais e questionada á respeito dos personagens que se vestia.

“Começaram a ver problema na minha roupa, na peruca, e na minha raça, porque eu não tinha a cor ‘ideal’ para o cosplay.”

Laicosplay, cosplayer, designer e fotógrafa, têm experiências muito parecidas com a de Patrícia.

Sofri ataques sobre a escolha dos meus personagens, porque em maioria são personagens de pele clara ( e eu sendo negra não poderia fazer eles). Era basicamente isso que eu recebia por e-mail e redes sociais”.

Lai também explica que, de tempos em tempos, as pessoas pediam para que ela “provasse” que conhecia o personagem que representava. “Eu tinha que postar algo do jogo para mostrar que eu jogava”, conta.

Entretanto, as duas artistas se mantêm otimistas a respeito de como o “cosplay positivo” pode influenciar o futuro.

“Ultimamente o movimento afro no meio cosplay esta ganhando força, isso é muito importante, a igualdade”, diz Lai. “Muitas coisas tem mudado para o lado bom. Como mulher negra e cosplayer, tenho visto muita admiração”, comenta Patrícia.

Eventos como a Perifacon – que estreou brilhantemente em março deste ano, reunindo mais de 4 mil pessoas – são a prova de que ainda existe muito a se oferecer nos campos da arte. É só deixarmos as portas abertas.

Gostou do trabalho das artistas? Vem conhecer mais!

Página do Facebook da Patrícia

Página do Facebook da Lai

Escrito por:

Rebeca Gonçalves

Rebeca Crespo tem 22 anos e é produtora, fotógrafa e roteirista no coletivo mais legal do mundo, o Friends Group. É apaixonada por literatura gótica, filmes blaxcpotation e por fazer perguntas demais.
Popular em Cultura