LGBTQ+ - Alguém ainda sabe o que isso significa?

No ano mais inquieto em relação às pautas de gênero, sexualidade e identidades coletivas, uma reflexão sobre o passado que nos cobra, o futuro que nos assusta e o presente que nos neutraliza.

''Isto não é um livro. É um interruptor. Um dispositivo que desliga a corrente. E que,por sua vez, permite que algo comece a andar, que algo se acenda".

ÉTICA BIXA. Paco Vidarte

Com esse statement, Paco Vidarte inicia seu livro Ética Bixa: Proclamações Libertárias para uma militância LGBTQ, lançado pela n-1 em abril deste ano. Mais do que um simples livro, (…) este livro é um panfleto e minhas análises políticas dão o que tem pra dar.

Mas afinal, é possível que existam políticas legitimamente "LGTQístas" ou estamos dando voltas no que consideramos pautas progressistas e amarradas ao senso comum?

''Não critique quem nos deu tanto''

2019 celebra  '50 anos de Stonewall', tema da PARADA LGBTQ+. Um grito de basta levantado por corpos trans e queer* que alavancou muitas das conquistas seguidas nos últimos anos.

  • Descriminalização da homossexualidade;
  • Casamento homoafetivo (2013);
  • Adoção de filhos por casais homossexuais;
  • Nome civil e social para pessoas trans em documentos sem necessidade de laudo médico ou autorização jurídica (2018);
  • Despatologização da Transexualidade (2018);
  • Criminalização da LGBTfobia (2019)**.

 (via Pedro HMC)

Essas conquistas não foram favores da sociedade. Foram resultados de muita luta, manifestações, saídas do armário, perplexidade com as centenas de mortes anuais no país e resistência dos corpos que se rebelam apenas por estarem vivos.

Um fator muito importante esquecido pelas classes mais privilegiadas(majoritariamente brancas) e ativistas ''menos radicais''.

''Para começar, a despeito dos que insistem que os gays e lésbicas estamos repetindo uma história muito curta, o fato de um caminho já ter sido percorrido, sem levar a lugar nenhum não quer dizer que seja um caminho morto: talvez aquela época não fosse o momento de desbravá-lo, mas hoje é. Talvez, a turma nova tenha sucesso naquilo que nós, velhos, fracassamos. E cada geração tem o direito de fazer novamente as mesmas perguntas, de questionar novamente os coletivos que dizem representá-la, (...)de se perguntar se as bixas nascem bixas ou se se tornam, de repetir a história ou mudá-la: que façam o que der na telha, que inventem, que percorram caminhos novos ou trilhados, que assumam ou cuspam sobre o que deixamos para elas como patrimônio(...)''.

Trecho de ética Bixa

Nunca se falou tanto em representatividade, e em meio à cenários intimidadores - principalmente dentro dos governos alinhados com ideais fascistas - esse paradoxo parece não conseguir mais sair do lugar.

Não me parece muito claro como absorvemos o tom de revolta de Stonewall para nos massificarmos nas culturas normativas e agradecendo de joelhos os direitos mínimos para a vida de qualquer ser humano. De onde sai a ideia de que a heterossexualidade é algo universal e que as identidades desviantes são um fator isolado, integrante de uma ''história alternativa do mundo'' ?

Não me parece muito claro como absorvemos o tom de revolta de Stonewall para nos massificarmos nas culturas normativas e agradecendo de joelhos os direitos mínimos para a vida de qualquer ser humano. De onde sai a ideia de que a heterossexualidade é algo universal e que as identidades desviantes são um fator isolado, integrante de uma ''história alternativa do mundo'' ?

Identidade coletiva e desafios individuais

Junho concentra as ações e festividades que dizem respeito aos assuntos da dita comunidade LGBTQ+. Recentemente alguns puderam acompanhar na mídia 'polêmicas' envolvendo influenciadores digitais que se diziam ''apenas dois caras'' ao invés de um casal gay.

Quando eu arrisco tudo me assumindo, eu arrisco por nós duas. Quando eu arrisco tudo e funciona (e às vezes funciona, experimente tentar), eu me beneficio e você também. Quando não funciona, eu sofro e você não. 


Paco Vidarte

Olhando pra essas liberdades individuais, fica complicado apontar o dedo a qualquer lado. Sim, nossa história de conquistas é muito recente e boa parte da comunidade faz questão de estampar como quer que seja cada uma delas, muitas vezes recebendo olhares tortos daqueles que condenam tamanha exposição. Proponho um exercício: olhe ao redor e liste quantos corpos cis-heterossexuais se reprimem por serem quem são. Liste quantos deles sofrem de ansiedade ou pânico saindo de casa sem saber se vão voltar, simplesmente por serem quem são. Liste quantas vezes recebem olhares de reprovação por demonstrarem afeto em público. Ah, não esqueça de listar quantos tiraram a vida com medo de assumirem publicamente sua orientação afetivo-sexual.

Um grito de convite à luta

''Policiar" a si mesmo é o primeiro ato de solidariedade: ainda que este termo seja muito abstrato na contemporaneidade.

Sobre acordar e escrever a própria história.

Independente se seguimos os passos da dita comunidade ou se experimentamos novas maneiras de fabricar nossas identidades, é necessário enfrentar o lugar comum das ''conformidades'', dos abraços aos direitos conquistados mas que não necessariamente expandem nossas vidas. O queer é a liberdade como opção de instaurar nossas próprias existências, independente de modelos (des)ajustados.

O mundo contemporâneo nunca viveu tamanha fervorosidade a respeito dos corpos clamando seus espaços e se misturando em prol de pautas coletivas. Acreditar em formas já instauradas de militância tem sido frustrante para alguns desses corpos visto as maneiras mais libertárias que eles tem encontrado para se posicionarem nas inúmeras questões que nos dizem respeito. Não existe segredo: não se nasce bixa, torna-se. (ditado popular).

*termo inglês, que em tradução livre, pode significar ''bixa'', ''viado'', ou quaisquer termos relacionados à desvios de conduta normativos. A Teoria Queer, muito difundida por Judith Butler e outros autores famosos, busca elencar as políticas desviantes e modos de existência dentro das sociedades patriarcais e cis/heteronormativas.

**decisão do STF que considera crime, dentro das mesmas penalidades aplicadas à crimes de racismo, agressões ou incitações de ódio contra pessoas LGBTQ+ enquanto uma lei específica não é aprovada no Congresso.

Livros e publicações consultados na construção deste artigo:

Manifesto Queer Nation - originalmente circulou entre as pessoas que protestavam numa ação da ACT UP durante a Parada Gay de Nova York de 1990. Publicado em 2016 no catálogo do forumdoc.bh.20anos (festival do filme do cumentário e etnográfico - fórum de antropologia e cinema). Belo Horizonte.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico. n-1 edições. 2013.

VIDARTE, Paco. Ética bixa. n-1 edições. 2019.

Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo
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