O excesso de vazio: só as máquinas sobrevivem sem incertezas.

sem título, 2019. fotografia digital

Como uma equação, quão mais veloz é a circulação de informações menor é a nossa disposição de trabalharmos em nós mesmos as demandas que as relações nos exigem. E elas naturalmente exigem. 

(…)para o julgamento do gostar — I like — não se faz necessário qualquer consideração mais vagarosa (…) Falta-lhes qualquer tipo de fragilidade que pudesse desencadear uma reflexão, um reconsiderar, um repensar. A complexidade retarda a velocidade da comunicação(…) os sentidos são (…) um empecilho para o circuito veloz da informação. Assim, a transparência caminha passo a passo com um vazio de sentido. (Sociedade da Transparência, Byung-Chul Han. Editora Vozes, 2017)

É reconhecível que as redes sociais consigam fazer nossos corpos de produtos. A própria noção de face, um rosto sem expressão, mercadoria de sensações descontinuadas, toma o lugar do semblante, lugar que não mais funciona como convite investigativo de conhecer o outro, apenas reflete sem sugerir. 

A forma humana é complexa assim como uma máquina, mas diferente da última, requer tempo e planejamento, até pro corpo mais niilista (ou sagitariano) que se abre nas oportunidades espontâneas da vida. Sem o espaço vazio necessário para a autocompreensão entramos na espiral de comparações, deixamos a lógica da percepção, lenta, ligada ao momento, para experiências de consumo efêmero, conversas roteirizadas, importâncias descabidas e excesso de informações supostas.  

Se estamos de alguma forma preocupados com os futuros possíveis, pessoalmente, podemos voltar uns passos e reavaliar como nos relacionamos: quais prioridades estabelecemos quando estamos em contato com outros, o que estamos propagando como itens necessários de um padrão mental considerado saudável e exemplar? Não é sobre aprofundar conversas, descarilhar teorias e subir em pódios, mas como podemos compartilhar de uma melhor forma dos ambientes sem esquecer que na verdade ele é um só. 

Enquanto seres criativos, podemos habitar outras existências que nos permitam a expansão de nós mesmos, e não transpor nossos corpos em algoritmos.


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Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo
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