O fim do começo: espaços icônicos da cidade anunciam fechamento.

S/A e Trackers , casas que deram vida à muitos artistas e cenas locais, encerram as atividades e deixam lacunas na música independente da cidade.

Com o anúncio do fechamento de dois dos lugares mais icônicos da cena independente da cidade, burocracias acirradas para liberação de espaços públicos e um cenário desfavorável às ferramentas de democratização da cultura, artistas e público se vêem cercados pela censura social.

Foto de Ivi Bugrimenko

Em 2014, no auge da explosão criativa da VOODOOHOP e seu rizoma em coletivos de arte e música independente fincados no centro da cidade, a Trackers fechava as portas pela primeira vez. Ocupando um prédio amarelo de frente ao Largo do Paissandú, o labirinto de escadas lascadas, salas hedonistas e uma pista fervente, o local foi abrigo de diversas festas e eventos da galera mais descolada da cidade por muito tempo. Pouco após a construção de um muro na entrada do local pela prefeitura, alegando que o local não era seguro para o tipo de atividade que abrigava, os proprietários derrubaram o muro com as próprias mãos, num ato de rebeldia que trouxe de volta à rotina noturna o espaço mais democrático até então existente na cidade.

Em 2018, a empreitada foi abrir uma ''filial'' do icônico labirinto lúdico, mas com uma cara mais ''zona sul''. A filial localizada no Itaim Bibi, não durou muito tempo. Em julho, através de uma postagem na página oficial da casa, anunciaram o fechamento da sede no centro, passando a realizar eventuais festas em casas amigas.

Em 2012, nascia em Pinheiros, num pequeno casebre de porta escondida na rua, o S/A (Sociedade Anônima). Ali nasceram e cresceram artistas e produtores de todos os gêneros musicais, um espaço voltado à pesquisa e disseminação da arte em sua forma mais criativa. O local tinha como noites principais as quartas-feiras. Abrigou festas como Metanol , Existe Pista Após A Morte, lançamento do single de estreia da banda TETO PRETO, além de abrigar eventos de diversos outros coletivos novos e consagrados na cidade. Também em julho, anunciaram na página oficial o encerramento das atividades e uma extensa programação nos últimos 2 meses, celebrando todo o histórico de criação, conexões e experimentação artística e musical na cidade.

Além da Trackers, que supostamente estava enfrentando problemas com autorização do espaço, o S/A não divulgou o motivo do fechamento.

Paralelo a estas tristes notícias, coletivos musicais tem relatado maior dificuldade em conseguir autorização das subprefeituras para realização de festas de rua. De fato, o número de eventos que costumava ser semanal, muitas vezes coincidindo com 3 ou mais festas simultâneas em diferentes espaços abertos da cidade. Algo parecido já vinha ocorrendo há algum tempo, com agentes fiscais embargando festas em pleno acontecimento em galpões e estacionamentos abandonados na cidade. O motivo era a necessidade de alvarás complexos de funcionamento, algo que não cabia na logística self made das festas. Mais tarde, acusações de que proprietários de casas mais 'estabelecidas' estavam se unindo com o poder público a fim de dificultar a realização de tais eventos, por desaprovarem que um público tão grande e diverso estivesse ocupando festas independentes ao invés dos clubes consagrados na cidade, veio a tona. Uma reunião coletiva foi convocada em julho na Ocupa Ouvidor 61, também no centro, a fim de debater medidas que pudessem ajudar o destravamento da produção artística independente e suas manifestações em locais públicos.

Temos acompanhado os ataques à cultura protagonizados pelo governo eleito no ano passado. Programas de incentivo e ferramentas de democratização do acesso ao fazer artístico tem enfrentado dificuldades em se manterem ativos, e em São Paulo a coisa começa a refletir diretamente nos que fazem muito com menos.

Foto Antiline em evento do S/A - via @socialixo

Ainda não é possível afirmar que o fechamento das casas seja por motivos políticos ou mesmo por pressão externa, mas é inegável que o cenário que se constitui é de enfraquecimento da cena independente, o que nos ativa a refletir sobre como agimos quando somos convocados a defender o nosso espaço, nosso direito de habitar a cidade e de criar conexões que forneçam meios de multiplicar ideias e atingir camadas relacionais fora das que já existem.

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Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo