Shibari: Amarrando o corpo e soltando a alma!

Como as mulheres conseguiram, com a prática do Shibari, alcançar espaços, conquistar mais auto estima, gerar confiança, e desenvolver juntas um lindo trabalho de aceitação do corpo e de suas próprias escolhas. 

Em japonês, Shibari significa basicamente “amarrar”. É uma técnica japonesa de amarração com cordas, com foco na estética, fluidez, na comunicação e conexão entre Rigger (quem amarra) e modelo (quem é amarrado). A história do Shibari começa no Japão Feudal, onde os samurais utilizavam uma arte marcial japonesa chamada Hojojutsu para imobilizar prisioneiros de guerra com cordas por questões culturais (a corda é muito importante e presente na cultura japonesa até os dias de hoje).

De arte marcial para a "escravidão dentro das cordas"

Depois do Hojojutsu, a amarração com cordas sofreu uma revalorização erótica, e surgiu o Kinbaku, a “escravidão dentro das cordas”. Entre 1.800 e 1.900 a prática passou a ser focada no sensual e sexual das cordas! A apreciação sexual se dava na premissa de que o Rigger, como dominante, amarra sua “dorei” (escrava das cordas) para subjugá-la e obter sua submissão, exercendo controle durante todo o ato. Essa vertente ainda é muito praticada entre os adeptos do BDSM (acrônimo para bondage, dominação, submissão e masoquismo).

Mais recentemente houve outra revalorização, dessa vez artística, e hoje a técnica é focada principalmente na beleza e estética das cordas, condução e conexão, nas trocas que existem entre os praticantes. Nas últimas décadas tem acontecido grandes movimentações dentro da comunidade, e as mulheres estão tomando conta da cena!

O Shibari como forma de arte e expressão corporal

Nos dias de hoje o Shibari é majoritariamente visto como uma expressão artística; a prática já não é mais vista dentro da dinâmica de “escravidão nas cordas”. Existem diferentes vertentes como o aibunawa (gentileza nas cordas) e o semenawa (tortura nas cordas), essa última vertente em específico sendo vista com frequência em eventos fetichistas. O Luxúria, em São Paulo, é um exemplo de evento frequentado a anos pela comunidade alternativa paulistana. O evento comporta diversos tipos de cenas sensuais com demonstrações de práticas BDSM em meio ao couro, látex, coleiras, mordaças, cordas e muito mais, que divertem seu público nas noites exóticas do centro velho; tudo orquestrado pelo querido e excêntrico Heitor Werneck.

O bar e casa noturna Dominatrix Augusta, também é um carro chefe na cena alternativa com um espaço próprio para prática tanto do Shibari quanto de outras vertentes de plays, em seu segundo andar, para que os fetichistas e curiosos possam estar contato com um mundo de fantasias e delícias sensoriais.

A mulher como agente conector de pessoas em diferentes grupos, ganhando todos os espaços.

As posições dentro das cordas não são mais baseadas em homem cis = dominação, mulher cis = submissão, e existe uma grande importância quanto à equidade de gênero e a beleza de diferentes tipos de corpos na comunidade; muito é falado sobre representatividade e diversidade. A prática em si passou a ser focada em confiança e entrega, deixando de lado a ideia de dominação e submissão, sadomasoquismo ou fins sexuais como via de regra.

E num papo muito descontraído e cheio de insights maravilhosos com Engel Ropes, falamos sobre a presença feminina no Shibari e como isso tem moldado a comunidade atual.

"As mulheres do meio, aqui no Brasil, são muito ativas; a maioria das pessoas que ensina Shibari e organiza eventos dentro da comunidade aqui são mulheres. Falamos muito sobre segurança, consentimento, e temas importantes pra uma prática saudável."

Disse Engel, frisando a união que as garotas da comunidade brasileira tem conquistado juntas, quebrando paradigmas de padrão estético, hipersexualização da prática e desmistificando as relações entre Rigger e modelo.

De Marques de Sade a Vivienne Westwood.

As pessoas em sua maior parte hoje, iniciam sua jornada pelo descobrimento da subcultura do fetiche e suas vertentes, na internet, mas nem sempre foi assim. Há indícios do comportamento fetichista do homem desde sempre, basta folhear algumas páginas de “A Filosofia na Alcova” de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, em 1795 e aí podemos dar um salto na história e aterrissar no pós-guerra da II Guerra Mundial, onde militares, gays e os entusiastas de pessoas que usavam couro, e assim se iniciava o movimento Leather nos anos 40, mas de fato o BDSM somente se popularizou em meados dos anos 70/80 com a ascensão do movimento punk sendo elevado ao status Fashion com Vivienne Westwood. Com o advento da tecnologia, muita coisa se disseminou nas redes, e é até um pouco complicado encontrar informações que tenham embasamento e façam sentido, para que alguém comece seus estudos.

” Descobri o Shibari por leituras, principalmente relacionadas ao BDSM, pesquisando sobre Bondage. Levei alguns anos até me aproximar da comunidade e começar a praticar, e estudei bastante antes, por tutoriais no YouTube e Vimeo, muita leitura de sites e discussões no FetLife.”

Disse Engel, frisando a importância do conhecimento quando se trata de um universo tão vasto e complexo, onde podemos dar de cara com pessoas não confiáveis e informações distorcidas, e isso nos leva a uma outra questão importantíssima, que é a interação destas pessoas que assumem um LifeStyle diferente, no mundo real.

Há um evento de Shibari já bem consistente na comunidade brasileira, chamado Atados no Parque e nele a comunidade se reúne em um "piquenique com cordas" para treinar, praticar, trocar conhecimento e se aproximar. Segundo Engel, o Atados fez toda a diferença em sua jornada dentro da prática; nesse período conheceu pessoas incríveis em eventos e workshops. Suas principais inspirações femininas são Gorgone, Sophia, Pauline, Lótus, Cynnarae e a Chelsea; mulheres incríveis, talentosas, empoderadas, que a ajudaram a se enxergar como possível modelo e Rigger, e a incentivaram a buscar sempre mais conhecimento e empoderar outras mulheres dentro das cordas!

Juntas elas são mais fortes, e vão amarrar você.

A cena do Shibari brasileiro ainda é bem pequena, comparada a outros países, mas tem evoluído de forma organizada e muito empática nestes anos e eles creem que praticando juntos e disseminando conhecimento de forma embasada é que irão conseguir consolidar o cenário nacional do Shibari. As mulheres do meio aqui no Brasil são muito ativas; a maioria das pessoas que ensina Shibari aqui são mulheres. Falam muito sobre segurança, consentimento, e temas importantes pra uma prática saudável, e isso é fundamental para que se sintam confiantes tanto como modelos, quanto como Riggers, tanto que as garotas tem um grupo no Whatsapp e um perfil no Instagram chamado Shibari Feminista, onde se reunem, postam informações importantes, indicam profissionais de shibari ao redor do Brasil, e realizam também encontros pra praticar juntas! Isso ajuda a aproximar mulheres interessadas na prática e fazer com que elas se sintam seguras, representadas e acolhidas.

“O Shibari Feminista surgiu pela necessidade de termos um espaço só de mulheres pra praticamos e falarmos abertamente da nossa vivência. Tudo que discutimos lá me agrega imensamente como ser humano, como mulher e como modelo e Rigger.” Diz Engel, demonstrando como é essencial que as mulheres ocupem espaços sim em todos os âmbitos da sociedade, e que juntas elas conseguiram sim protagonismo em uma prática que inicialmente era algo proposto por uma maioria masculina, em contexto até muitas vezes dito como controverso quando se trata da liberdade feminina.

E o padrão, foi feito pra quem mesmo? Eu não me lembro...

Quando pesquisamos qualquer coisa relacionada a fetiche nas redes vemos sim corpos padronizados, e no rolê do Shibari não seria diferente, e Engel diz que recebeu muitas negativas de Riggers homens, com a justificativa que o corpo dela não ficaria bonito amarrado, ou que ela não poderia ser suspensa devido ao seu peso, e o fato de ter conhecido outras garotas na cena fez com que a mente dela se ampliasse, de modo que ela diz que não pode responder por todas as mulheres, mas o Shibari fez milagres pela sua auto estima e liberdade de escolha e expressão.

“Me sinto linda e poderosa quando sou amarrada, me sinto importante e honrada quando amarro uma mina. São escolhas minhas, é minha própria forma de expressão artística, me faz sentir bem, feliz.”

As garotas falam muito sobre o empoderamento feminino por meio das cordas e cada vez mais mulheres tem se aproximado da prática buscando beleza nas suas formas, procurando aceitação, aprendendo a ser mais gentis consigo mesmas. Isso é incrível; a forma como elas se unem é poderosa e Engel pode provar!

Uma Mochila nas costas, cordas nas mãos e pé na estrada.

Atualmente Engel reside em São Paulo, onde seu trabalho é mais intenso, com sessões, aulas, workshops, organizando o Atados no Parque e diversos eventos de Shibari no Galpão Infinito, onde é parceira. Mas já ministrou workshops em Curitiba e no Rio de Janeiro, está se planejando para ir a Vitória, Brasília e Belo Horizonte.

Os locais por onde passou e trabalhou em conjunto com colegas de profissão foram incríveis e a aceitação do workshop foi ótima. As turmas foram muito criativas e fluiu tudo muito bem, mas ainda existe uma resistência por parte de sua família que sabe, mas não aceita ou respeita muito e uma certa repressão quando se trata da sua nova profissão perante amigos da época da escola a acham doida, ou mesmo os da faculdade que não entendem porque não trabalha integralmente em sua área.

Formada em Licenciatura em Letras, decidiu trabalhar com cordas, não esconde de ninguém o que faz, mas infelizmente existe muito julgamento e preconceito por todos os lados. Engel conta que onde se sente mais aceita e confortável para ser ela mesma geralmente é entre os praticantes. Ela possui também tenho um projeto focado em diversidade e representatividade, chamado Nós: Laços e Traços, onde valoriza a importância do amor próprio e da arte.

Mas não vai ter sexo, como assim?

Há uma sexualização ou fetichização com seu trabalho e é “comum” pra ela ter que lidar com homens entrando em contato constantemente pra fazer comentários maldosos, falando coisas sexuais sem a menor liberdade pra isso. O tempo todo Riggers mulheres, como Engel, precisam explicar que suas sessões não envolvem sexo nem práticas BDSM. Elas são constantemente assediadas em suas redes e até em eventos onde se apresentam.

“Eu preciso me impor todas as vezes, é cansativo. Lido com isso da melhor forma que posso, tentando desmistificar essa hiper sexualização das mulheres nas cordas.”

Engel.

E é lutando contra os padrões, as mentes limitadas, as pequenas repressões sociais do dia-a-dia que garotas como Engel, que tão jovens seguem seus sonhos, de viverem mesmo à margem da sociedade, fazendo aquilo que acreditam, acolhendo outras mulheres, e mostrando ao mundo como uma simples corda e uma mente muito forte podem mudar o mundo!

Escrito por:

Ana Medioli

Ela é bruxa, publicitária e sonha em ser mãe de família, mesmo tendo um monte de tatuagens pelo corpo, uma vida não tão regrada assim, e jura que segunda começa a dieta, sempre! Aos 27 anos já se mudou mais de 10 vezes em SP, se considera uma cigana na cidade grande e acredita de verdade que a arte vai salvar todos nós do fim do mundo.
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