HISTÓRIA-DISCOTECA ONEYDA ALVARENGA

Em 1938, Mário De Andrade organizou uma viagem entre o norte e nordeste brasileiro, cuja valiosa missão era documentar as tradições folclóricas, enquanto ele dirigia o Departamento de Cultura de São Paulo. O motivo seria o receio da nascente industrialização e urbanização do país, refletida no advento da rádio, fossem capazes de engolir as tradições musicais de raiz.

O grupo percorreu 28 cidades em Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará. Os enviados catalogaram 70 artistas e grupos musicais. Foram coletados instrumentos sonoros, objetos de culto e anotações de campo. Todo registro musical foi gravado em vinil, fato que fez o grupo levar um enorme aparato de toca-discos com agulha de safira e gravadores. O marco mais importante: eles fizeram as primeiras documentações em vídeo do gênero no Brasil.

Capa do vídeo

Formada por Martin Braunwieser (músico e maestro), Luiz Saia (chefe da empreitada, arquiteto e membro da Sociedade de Etnografia e Folclore), Benedicto Pacheco (técnico de som) e Antonio Ladeira (assistente de gravação), a expedição registrou uma lista extensa de ritmos: Coco, Congada, Catimbó, Barca, Tambor de Criola, Tambor de Mina, Caboclinhos, Pankararu, Boi Bumbá e até o tal de “Carregadores de Piano”.

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Entretanto, os livros de história não destacam devidamente a relevância de uma mulher nessa empreitada, até então protagonizada por homens. Ela é Oneyda Alvarenga Formada em piano, Oneyda chamou a atenção de Mário de Andrade desde a entrevista para ser aceita na escola, onde ele dava aulas, o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Naquela época, raramente, garotas tinham acesso a livros sobre música ou poesia, mas ela demonstrava conhecimento acima da média. Especializou-se em crítica musical e é dona do título de maior referência feminina na documentação da origem e do folclore da música Brasileira.

Durante o o treinamento para o cargo de trabalho, Oneyda teve aulas sobre etnografia e folclore pelo casal Dinah e Claude Lévi-Strauss. Outra faceta da pesquisadora é o de poeta, cujos compilado de versos “A Menina Boba” foi publicado pelo escritor Manoel Bandeira, outra lenda do modernismo literário. Oneyda catalogou a maior parte do acervo recolhido na expedição. Foram 3.754 envelopes, cada um dedicado a um verbete, além de mais 110 envelopes complementares com procedimentos de trabalho e outros assuntos. Dentro deles, fichas manuscritas, folhas de cadernetas de bolso, pedaços de papel-ofício, fotografias, cartões-postais, recortes de jornal e páginas destacadas de revistas. Detalhe: tudo datilografado a mão, na máquina de escrever, muito distante da praticidade da internet. A folclorista foi diretora da Discoteca Pública de São Paulo e uma das fundadoras da extinta Sociedade de Etnografia e Folclore. Mais de 40 anos depois do início do arquivamento, em 1982, ela retomou a catalogação do acervo da expedição e da obra de Mário de Andrade. Infelizmente, ela veio a falecer dois anos depois, mas deixou um legado eternizado em um monolito de 700 páginas e cerca de 3.500 verbetes.

O Freak Market foi dar um rolê pelo CCSP para conhecer os departamentos musicais. O motivo era acompanhar a primeira edição da Rádio Vírusss no ateliê de artes.Mas o passeio rendeu momentos históricos inesquecíveis. Na ativa desde 2015, a Rádio Vírusss é uma plataforma de transmissão musical pela internet, que busca exibir novos talentos da cena eletrônica independente. Criada pela DJ Cashu (Mamba Negra), as edições dão espaço para artistas se apresentarem em formato live ou DJ set. O projeto já deu espaço para cerca de 300 nomes de cenas de música eletrônica independente brasileira e sul-americana, de selos e festas como Domina (RJ), MASTERplano (BH), Bandida (SP), Bicuda (Campinas), Kode (RJ), Metanol (SP), Caldo (SP), Trava Bizness (SP), Goma.rec (RS), 1010 (BH), Sangra Muta (SP), Magma (RJ), Carlos Capslock (SP), ODD(SP) e incontáveis nomes. A transmissão é feita pelo músico Matheus Câmara, o Entropia-Entalpia (Mamba Negra) e é esta pessoa que escreve a responsável pelas entrevistas. O line up da rádio contou com a multinstrumentista Maria Beraldo, autora do disco “Cavala”. No fechamento, a cantora CARNEOSSO, vocalista do Teto Preto, executou apresentação com hardwares em formato Live PA, sob o codinome Diaz. Além da Discoteca, o CCSP abriga outros espaços incríveis para quem curte boa música ou quer ter seu programa de rádio. Até dezembro, é possível utilizar o estúdio de rádio para gravações de podcast gratuitamente, através do projeto LabRádio.

Dentro do acervo do CCSP estão discos de 78rpm, 33rpm e CDs, além de partituras, periódicos e livros de música. Em 1982, depois de passar por várias sedes, a Discoteca foi transferida para o Centro Cultural São Paulo. O acervo é composto de música popular, folclórica e erudita, de procedência nacional e estrangeira, disponível para consulta e audição.

A reportagem do Freak Market deu um rolê inacreditável no CCSP. Durante visita à Discoteca para filmar a doação dos discos de Maria Beraldo e Teto Preto, feita pela Rádio Vírusss, testemunhamos um fato histórico da música Brasileira.

A reportagem do Freak Market deu um rolê inacreditável no CCSP. Durante visita à Discoteca para filmar a doação dos discos de Maria Beraldo e Teto Preto, feita pela Rádio Vírusss, testemunhamos um fato histórico da música Brasileira.

Acompanhamos a visita do cantor Fábio Rolon ao acervo em busca do seu primeiro disco. Mais conhecido por apenas Fábio, ele foi o melhor amigo de Tim Maia, com quem protagonizou intensas aventuras. No filme “Tim Maia” ele é interpretado pelo Cauã Reymond. Curiosamente, ele gravou a própria “voz” na vinheta futebolística da Rádio Globo, executada por 40 anos, sempre precedida de um marcante assovio. Tempos depois, o músico abriu processo contra a emissora em função de direito autorais não remunerados. A faixa “Stella”, inspirada em um pé na bunda amoroso real, colocou Fábio no topo da paradas em 1969.

LIK STELLA:

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Escrito por:

Danila Moura

A porta de entrada para o seu vício em velharias foi um videocassete, o mau elemento eletroeletrônico que a fez desandar de vez no mundinho das filmadoras analógicas. Divide o tempo entre as funções de sommelier de DJ set e designer de brisa. Quinzenalmente, é batedora de papo na Rádio Vírusss
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