O Coletivo Rolê e a cidade invisível

Quando reflete em seu livro “As Cidades Invisíveis”, o escritor Italo Calvino nos coloca um dilema universal: longe de ser só um ponto geográfico, uma cidade é construída por desejos e medos, muito além da mente e do acaso.

Não é diferente com São Paulo, embora a obra empreste um pouco do realismo fantástico latino-americano para percorrer espaços urbanos imaginários. Como qualquer outro lugar, São Paulo é fonte inesgotável da complexidade e da diversidade humanas. Do luxo ao lixo, do claro ao escuro, do povoado ao abandonado, tudo cabe na maior cidade do Brasil.

Mas alguns detalhes passam ignorados aos olhos da turba apressada que se movimenta acima e abaixo no caos urbano de cada dia e noite. Na cola dessas sutilezas, o Coletivo Rolê transita pelas ruas da pauliceia desvairada à procura do melhor ângulo fotográfico – o mesmo, muitas vezes, com 22 pontos de vista artísticos e diferentes registrados. “A gente achava que algumas fotos sairiam iguais nos primeiros Rolês”, contou ao Freak Market Ronaldo Franco, um dos fundadores,  “mas, quando víamos na sequência, as imagens [do mesmo objeto fotografado] eram completamente diferentes”.

A São Paulo que a gente não vê diante lentes do coletivo

Descentralizado, porém unido e horizontal, o grupo surgiu da vontade da exploração sem pauta definida ou sem ter que dizer alguma coisa com a tal imagem que fala mais de mil palavras. “É todo um processo livre de estar na rua e ocupar o espaço urbano”, pontua ele. Eram dez amigos quando o Rolê surgiu, em meados de 2004, dentre eles alguns fotógrafos amadores no começo – e que, por causa do coletivo, viraram profissionais. Como todas as boas ideias, começou num bar, a partir da necessidade de extravasar a rotina por meio da liberdade autoral.

Muita coisa rolou daí para a frente e, hoje, o Rolê é composto por 22 nomes: Lucas Pupo, Charlie Oliveira, Ronaldo Franco, Alisson Louback,  Renato Lima, Franco Amendola, Marco Marquesi, Renato Misse, Cauê Ito, Carlos Pêra, Marcos Cimardi, Ivan Shupikov, João Sal, Fabio José, Antonio Brasiliano, Edu Castello, Pedro Ianhez, Paulo Batalha, Otavio Sousa, Renato Stockler, Maira Acayaba e Pedro Bayeux.

Coletivo Rolê por ele mesmo. Na foto estão também alguns participantes de um workshop feito no mês passado

Embora a maior parte dos mais de 70 Rolês tenha acontecido à noite (“costumava ser o único horário em que a gente tinha tempo, já que todos trabalham”, diz Ronaldo), o coletivo cola nas ruas de dia, vez ou outra. O equipamento usado é o mais variado possível, embora predominem câmeras DSLR digitais e analógicas de pequeno e médio formato.

“O que existe é uma diversidade de fotografias, diferentes olhares em relação a ângulo, cor, uso da lente”, explica Antonio Brasiliano, outro integrante do Rolê. “Tem uns que fotografam com ou sem tripé; existem aberturas diversas de diafragma, tempos de exposição variados, uso ou não de lanternas… E o resultado são fotografias distintas, muitas vezes de um mesmo objeto, cada qual diferente da outra.”

“O penúltimo nunca deixa o último”

Fotografar o Centro, seus entornos ou mesmo as perifas à noite significa encarar os potenciais perigos que ela guarda. O que facilita o lado no caso do Rolê é que ele sempre é composto de diversas pessoas. Aqui, a velha máxima de a união faz a força ganha um aditivo: o penúltimo nunca deixa o último, ou seja, quem fica para trás em busca da melhor imagem ganha a companhia ou o alerta para ficar junto e misturado ao grupo.

Nunca rolaram problemas sérios, apenas tensões pontuais, segundo eles – mas nada que não se diminuísse no decorrer de um bom papo (ou simplesmente ficando esperto com o que rola ao redor). Não surpreende, mas foram mais enquadros da polícia do que ameaças da vida noturna diversificada das quebradas na noite paulistana.

Seja como for, o peso artístico e documental criado pelo coletivo ao longo desses anos impressiona. Tanto que já rendeu diversas exposições nacionais e internacionais, a última delas no Mirante 9 de Julho e a primeira com um grande tema definido – os espaços abandonados em São Paulo.

Na opinião de Antonio, essa foi uma das grandes transformações pelas quais a cidade passou desde o seu começo de atuação no Rolê, há cerca de dois anos. “Fotografamos muitos shoppings, igrejas e escolas abandonadas. Acho que quase todo mundo curtiu mapear e expor esses lugares invisíveis. Vivemos o vazio da noite: é outro tempo, outra velocidade, outros personagens, outras sensações envolvidas. A gente acaba reinterpretando e dando um novo significado para os espaços.”

Coisa de louco para alguns, mas nada mais do que uma forma de exorcizar um pouco a São Paulo caótica do cotidiano por meio da arte. Como diz Italo Calvino no romance citado no começo do texto, nesse inferno que formamos todos juntos, existem duas formas de não se sofrer. A primeira é mais fácil para a maioria das pessoas: aceitar e tornar-se parte deste até deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada, exige atenção e aprendizado contínuos: tentar saber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. No caso do coletivo Rolê, cai como uma luva a última alternativa.

(As fotos usadas nesta reportagem foram gentilmente cedidas pelo Coletivo Rolê. © Todos os direitos reservados.)

Escrito por:

Marina Lang

Marina Lang é jornalista de formação e mestre em Humanidades pela FFLCH-USP. Já trabalhou como editora-chefe, editora-assistente, escritora, repórter e afins para a Folha de S.Paulo, Gizmodo, Editora Trip, DJ Mag, Rádio 91 Rock, Gazeta do Povo, Apple, Sony Mobile, Lenovo e alguns outros por aí. Foi diretora de Redação do Freak Market. Curte a vida adoidado com alguns seriados, filmes maneiros, muita música, alguns rolês e uma tonelada de livros.