A música transgênero de Ava Rocha e d’As Bahias

Ava Rocha, Raquel Virginia e Assucena Assucena são a prova da diversidade brasileira na sua natureza intrinsecamente fascinante e complexa. Enquanto a primeira é filha de Glauber, um dos cineastas mais respeitados e polêmicos do Brasil, a segunda é negra e veio da periferia de São Paulo. A terceira é baiana de Vitória da Conquista. As duas últimas são trans. As três são cantoras da cena underground e independente que lançaram discos brasileiros fantásticos no ano passado. Mas todas elas vão muito além desses distintivos.

Raquel e Assucena são As Bahias que cantam acompanhadas da Cozinha Mineira. Lançado no final do ano passado, o disco “Mulher” (ouça abaixo) causou frisson com letras poéticas e repletas de significados, numa mistura de estilos, arranjos e composições que só a música brasileira consegue assimilar. “Ela é antropofágica”, resume Assucena. Já Ava Rocha deu luz ao aclamado “Ava Patrya Yndia Yracema” (ouça abaixo), um caos organizado de música brasileira com elementos de eletrônica, flautas, guitarras, violões e outros instrumentos. Dois discos com pegada tropicalista, embora diferentes, que comungam em muitas coisas. Uma delas é a genialidade das criações. A outra é o tom liricamente político – e inevitável – que todas elas carregam no peito e na alma.

Música transgênero e aventura perigosa

Elas representam, sem sombra de dúvida, uma nova fase da música brasileira. Etapa que, essencialmente, que rompe com normas, padrões, pasteurização e ritos pré-definidos.A questão do transgênero é interessante por causa disso, porque é transcender o gênero, transcender a linguagem, transcender a forma”, disse Ava Rocha ao Freak Market. “Isso se dá em todos os lugares, inclusive na arte. Eu falo, por exemplo, que a minha música é transgênero, porque não quero me prender em um gênero estabelecido. Essa abertura da linguagem acho interessante quando se fala de transgênero. O que é, no fim das contas, não importa. Não sou transgênero no corpo, mas minha música é transgênero.”

Capa do vídeo

Quando Ava diz isso, Raquel e Assucena exaltam na mesa de bar em Santa Teresa, reduto boêmio do Rio de Janeiro. Não é fácil, afinal, transcender o padrão bionormativo, como elas mesmas sabem e vivem na prática. Até mesmo nos lugares mais alternativos. Travestis são pessoas marginalizadas e quase sempre relegadas às sombras da noite. Mas tanto Assucena e quanto Raquel fazem parte de uma emancipação social da visibilidade trans: são formadas em história pela FFLCH-USP, pegam táxi, enfrentam a fila do pão, fazem supermercado, pagam as contas no banco, vão à academia, mesmo que sob olhares tortos, simpatizantes ou curiosos. Pudera: as duas chamam a atenção – seja pela personalidade forte, seja porque são lindas. “Cada coisa normal do dia a dia é um evento para a gente”, divertem-se.

“Esses dias fui fazer academia e me perguntaram se sou operada”, conta Raquel. “Na boa, não tenho que responder isso. É uma intromissão no meu corpo, e somos as únicas pessoas que precisam falar sobre isso para ter nossa identidade respeitada. Tenho lutado pelo direito de privacidade das travestis, porque parece, às vezes, que tudo o que é nosso é público”, protesta.

Mesmo o meio alternativo traz desafios para As Bahias. “Já briguei numa festa alternativa. Um cara me ofendeu na fila do banheiro, outro levantou meu vestido, tudo em uma festa alternativa”, conta Raquel. “Só para você ter uma ideia sobre como não é fácil, eu fui orientada a ter tolerância com os preconceituosos. Como a gente estava começando mesmo nos shows, as pessoas falavam: ‘tenha só um pouco de calma’. Porque eu perco as estribeiras quando eu sou violentada nesse sentido. Perco o rumo. Esses dias aqui no Rio de Janeiro apontaram uma arma para mim. É uma aventura, entende? Uma aventura perigosa.”

Com toda a razão. “No meio alternativo é complicado para mulher em geral, acho. Embora as mulheres estejam tomando seu espaço, a música ainda é um ambiente dominado por homem. Existe uma separação de mulher cantar, homem tocar, tivemos dificuldade de achar musicista mulher. Mas acho que isso vem mudando”, completa Assucena.

Raquel conta que, muitas vezes, tomou a iniciativa para falar e negociar com músicos ou caras do estúdio, e que eles se recusavam a olhar para ela. “Mas isso por você ser mulher ou por você ser trans?”, pergunta Ava. “Acho que as duas coisas. Mas principalmente como mulher. Como se parecesse que eu estivesse me colocando num lugar que não era meu, um lugar de decisão.”

“Na verdade machismo é um bicho que a gente tem que matar todo o dia, aos poucos, e mesmo no meio artístico, no qual rola minimizado”, completa Ava. “É um processo pedagógico também, porque às vezes a pessoa fala uma coisa que não queria ter falado ou que não consegue reconhecer como tal. Só que a gente precisa abolir.”

“Pois é”, continua Raquel, “tem situações e situações. Às vezes sou bem didática. Moro na rua do Mackenzie [faculdade tradicional de São Paulo] e digo que a cada semestre eu dou uma aula. Cada turma nova que chega eu preciso ensinar que eles não vão se meter a besta comigo. É mais ou menos três semanas brigando e aí para. Até a nova leva [de alunos]. Já peguei a minha bolsa e abri dizendo [simula portar uma arma]: ‘você é louco? Vai mexer com travesti negra, você é maluco?”

Eles morrem de medo. “Aí vai e tira um batom”, diz Ava. Todas gargalham – a delicadeza forte de Raquel passa longe de ser algo delinquente ou criminal. É pura presença de espírito.

Desconstrução diária do país

Tudo isso vem no rescaldo da crise política nacional que, segundo Ava, é uma transformação da identidade do brasileiro. “É uma grande transformação”, diz. “Há estudantes ocupando a Assembleia Legislativa. É tempo de luta de todos esses movimentos aqui agora. É um momento de reinvenção e de desconstrução, de repudiar tudo o que estamos aturando: desigualdades, opressões diversas, injustiças.”

Assucena continua: “Bom, no Brasil as coisas nunca foram fáceis. Ninguém nunca deu direitos a mulheres, aos índios, às bichas, às travestis. Sempre foi uma pressão social.”

Todas elas se demonstram preocupadas com o que chamam de “pós-lulismo” e “pós-dilmismo”. “A Dilma propôs uma reforma política pedindo paridade de gênero no Congresso. Com cotas para indígenas. Quis discutir a concessão pública da Globo. Quem sobrevive a uma situação dessas?”, questiona Raquel. “E tem o fato de ser mulher. É horrível a cobertura da imprensa, tive insônia esses dias.”

E dispara: “Eu sou petista porque eu cresci no Grajaú [periferia de São Paulo]. Eu vi a minha vida mudando. Eu era de uma época de que você não tá ligado o que era o transporte público. É uma bosta hoje, mas antes era uma bosta das galáxias. Você entrava e não tinha preço de transporte, quem decidia o preço era dono da lotação – que era tudo máfia. Você entrava em uma besta com um amontoado de gente. As pessoas iam tristes, amarguradas. Eu lembro que quando a Marta entrou, quando era petista. Ela fez o CEU e lembro que o papo no Grajaú era que neguinho tá nadando em piscina. Cresci num bairro chamado Cantinho do Céu, não tinha saneamento básico. Ela colocou CEU lá no meio. Junto foram a biblioteca, as salas de aula, a piscina. O assunto era a piscina! Então chegaram também comércio e saneamento. Quando eu entrei na FFLCH, [notei que] o pessoal lá adora falar que o PT e o PSDB são a mesma coisa. O caralho! A prova de que não é a mesma coisa é isso. A galera que não vive as mudanças enxerga só o que você consegue ver.”

No campo de diálogo esquerda e direita, Ava contemporiza: “O Brasil sempre foi assim, meio fascista. Tem esses vários lados, mas o fascismo é muito grande, o racismo é muito grande. Estava todo mundo acomodado nesse sistema. O cara que é fascista não vai falar isso porque é muito cômodo para ele: a empregada dele está lá, dormindo no quartinho de empregada, a vida tá organizada, tá “tudo certo”, negro lá, mulher ali. Só que, a partir do momento que as pessoas se empoderam e que os outros começam a se sentir ameaçados, esses fascistas irrompem com todas as forças.”

Só que, continua Raquel, “não existe mais hipótese de certos projetos não continuarem. E se não continuarem a gente vai pro pau!”

Todas elas são contrárias ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Para Ava, trata-se de “um momento trágico, terrível o que está acontecendo no Brasil agora, mas é um momento necessário. Vai acontecer uma reinvenção enquanto país. Com o Temer, com a Dilma, o que quer que aconteça a coisa já está dada. Sem a Dilma vai ser mais difícil e doloroso. A gente sabe que isso tudo é resultado de uma política antiquada exercida até hoje. O momento da reforma é agora, é um campo de reinvenção total”.

Assucena lembra que Glauber Rocha – pai de Ava – analisou muito bem a sociedade brasileira. “Terra em Transe é um filme muito atual para esta situação que estamos passando, enquanto povo, político e artista.”

“Sim”, prossegue Ava, “Glauber falava isso, desse campo de invenção, da revolução da linguagem. Política e arte são indissociáveis. Uma das maneiras de repressão do homem dividi-lo; é dizer a ele que você é mecânico, você é cantor, você é político, então as pessoas ficam fragmentadas e enquadradas na sua condição social, física, na sua profissão. A grande transformação é que você tem que potencializar todas as suas virtudes. Todo mundo é artista e político em potencial, e isso está ligado ao cotidiano e às maneiras que você enxerga o seu cotidiano, de você se empoderar sendo o que quer que você seja.”

“Então essa questão da linguagem é fundamental. Todo mundo é enquadrado na sua condição, vivendo uma série de opressões, preconceito, competição, raiva, ignorância… O cinema do Glauber fala disso, dessa liberdade do corpo, do momento de reinvenção, quebrar esses padrões e ressignificar, entender que a cultura não é um acessório da educação ou coisa de artista ou coisa folclórica. Cultura é a primeira coisa, o contexto de onde o homem nasce, o que forma a gente e o que dá força para compreendermos o mundo.”

Criações, composições e palco

As três se conhecem há pouco tempo – mas a química entre elas é reluzente. Não poupam elogios umas às outras. Planejam, também, fazer algumas parcerias daqui para a frente. “O apoio da Ava tem sido algo fundamental para nós, porque nosso trabalho ainda é recente e, portanto, frágil. Amamos a música dela”, diz Raquel.

Ava devolve: “Sempre fui apaixonada por grandes cantoras, e elas me remeteram a grandes vozes de grandes cantoras. A alma da coisa, voz, composições sonoridades… O disco é muito bem produzido e arranjado. Olhei isso antes de qualquer aspecto visual.”

Capa do vídeo

Se Ava define seu processo artístico como alquímico – uma fusão de vários elementos e sua forma de fazer política –, a forma de “exorcismo” da realidade de Assucena é o palco. “Quando Walter Benjamin fala sobre arte e religião, têm uma relação muito profunda entre ambas. O palco é sagrado, um lugar de reverência mesmo. Um lugar de transcendência do ser, além de qualquer rótulo.”

Raquel, por sua vez, está na fase de escrever letras. “Tenho achado que ando escrevendo mal porque quero fazer uma coisa mais papo reto”, afirma. “Estou revoltada porque quando sou ameaçada de morte fico assim”.

Ela se refere a um show no qual levou uma garrafada na cabeça – tudo porque beijou um homem que não havia percebido que a cantora é trans. “Quando me dão jogam uma garrafa na minha cabeça, estão tentando me matar. Chorei muito naquela noite. O bicho mais covarde do mundo é o homem. Mas não deixar perder o meu lirismo, escrever sobre as estrelas e sobre a lua.”

Achou palavras de conforto em Mano Brown, dos Racionais. Ele estava próximo a uma roda de conversa dia desses e ouviu Raquel contar isso para algumas pessoas. Brown ficou indignado com a história. “Os caras estão falando demais. Tá na hora de vocês começarem a falar mais que os caras”, proclamou o rapper. Pedido feito, pedido aceito.

(Crédito da foto de capa: Ana Azeredo/Divulgação)

Escrito por:

Marina Lang

Marina Lang é jornalista de formação e mestre em Humanidades pela FFLCH-USP. Já trabalhou como editora-chefe, editora-assistente, escritora, repórter e afins para a Folha de S.Paulo, Gizmodo, Editora Trip, DJ Mag, Rádio 91 Rock, Gazeta do Povo, Apple, Sony Mobile, Lenovo e alguns outros por aí. Foi diretora de Redação do Freak Market. Curte a vida adoidado com alguns seriados, filmes maneiros, muita música, alguns rolês e uma tonelada de livros.
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