De Padre a Mulher Trans - A história de Giovanna Felix

Uma mulher comum, temente a Deus e que vive feliz com sua família no sul do país: Giovanna é transexual, e com seus documentos recém retificados e um trabalho formal finalmente, ela comemora suas conquistas e conta sua trajetória de transição de gênero!

O Brasil segue na liderança do ranking de assassinatos a pessoas trans no Mundo! Você sabia?

Conforme publicado no último relatório da Trangender Europe (TGEU), instituição que monitora os casos de assassinatos desse tipo em todo o mundo, este é o quadro que assola nosso país e como se tratam de dados apenas coletados pela mídia, o número destes crimes pode ser ainda maior, porque existe um grande índice de casos não notificados ou veiculados nas mídias de modo geral.

Somente no ano de 2018, ocorreram 163 assassinatos de pessoas trans, sendo 158 travestis e mulheres transexuais, quatro homens trans e uma pessoa não-binária, mas apenas 15 casos tiveram os suspeitos presos, isso representa apenas 9% dos casos.

O transfeminicídio vem se reproduzindo entre todas as faixas etárias, e em diversos estados do país, tendo o Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo como os estados com mais assassinatos a esta população, segundo diversas pesquisas.

Uma pessoa trans apresenta mais chances de ser morta do que uma pessoa cisgênera. Estes assassinatos são mais frequentes entre travestis e mulheres transexuais negras, que por sua vez também tem a menor escolaridade, menor acesso ao mercado formal de trabalho e a políticas públicas. A intolerância religiosa juntamente com o racismo, adentram de maneira profunda para fomentar estes crimes de ódio, fazendo com que a população trans no país sofra ataques diariamente!

A classe artística têm batido fortemente neste ponto, mostrando a realidade da população trans e LGBTQI+, a fim de desmistificar tabus, enaltecer a força destes indivíduos e levantar a bandeira do respeito, igualdade e amor ao próximo através da música, artes plásticas e moda.

E para mostrar um pouquinho da intimidade e da jornada diária das mulheres trans, conversei com Giovanna Felix, de 36 anos, que antes de passar pela transição de gênero foi seminarista por 7 anos em São Paulo e na Itália, onde cursou Filosofia e Teologia. Hoje morando em Santa Cataria, tem uma vida completamente diferente, e me contou um pouco da sua trajetória!

UMA CRIANÇA DIFERENTE: A infância e juventude trans.

Como foi sua infância com sua família?

Minha infância não foi como de qualquer outro menino, infelizmente o Brasil não tem estrutura psicológica para lidar com crianças trans e as pessoas acham que ser trans é uma opção e não é. Há pessoas que se transvestem de mulher, de maneira artística como as Drag Queens, mas não tem de fato a essência que uma mulher trans possui, pois nós já nascemos assim.  Sempre me senti presa no corpo de um menininho mas desde pequena não me identificava com ele porque já era feminina, delicada desde cedo e gostava de brincar com os brinquedos de menina e tinha um jeito meigo, sabe? Me identificava com as brincadeiras e danças das meninas, mas ao mesmo tempo queria estar perto dos meninos porque achava eles bonitos. Conforme fui crescendo fui sentindo a necessidade de me ver com roupas femininas, foi quando eu comcei a pegar peças de roupas da minha irmã e ia escondida ao banheiro para provar!

Quando se deu conta que era gay?

Desde criança já sentia essa atração por meninos, então não tive o descobrimento disto, porque não se descobre algo que já está claro para mim desde que me entendo por gente.

Mas com os anos percebi que minhas preferências e desejos eram incomuns para a maioria, e então descobri que fazia parte da famosa “Minoria da Sociedade”.

Há algum fato marcante da sua juventude que a fez perceber as dificuldades de “ser diferente”?

Eu passei minha adolescência inteira na igreja evangélica, tentando mudar esse meu “lado e até achava que o que eu sentia dentro de mim era algo do mal e deveria me libertar disso! Não queria pertencer a minoria, ser rejeitada e ser alvo de preconceito e chacotas então por isso dediquei anos sendo um jovem crente e temente a Deus.  Em certa ocasião conheci um pastor que percebeu que eu era diferente, e usou a fé que eu tinha em Deus para me molestar. Ele dizia que era Deus quem mandava ele orar sobre minha parte intima para ele me libertasse e curasse, e como ainda era muito nova, acreditei. Estes episódios ocorreram muitas vezes, mas comecei a desconfiar e dei um basta, porém não o denunciei para minha família, porque ele era um pastor muito importante e conceituado! Esta história só veio à tona de novo depois que cresci e descobri que ele molestou outras crianças também.

DEUS COMO AMOR, BASE E MISSÃO: A fé que sustenta e dá seus caminhos.

Você passou anos no seminário e chegou a ser padre, conte como foi esta experiência?

Fiz amizade com Jovens seminaristas da igreja católica, e me convidaram para um encontro vocacional. Quando eu fui, gostei e acabei ficando... Isso me rendeu 7 anos de vida religiosa!

Como foi atuar na pastoral de uma igreja bem no meio da segunda maior favela de SP?

No começo fiquei bem receosa e com medo do que ia encontrar pela frente, mas aos poucos fui descobrindo minha missão convivendo com as pessoas ali da Paróquia São José, que inclusive foi o lugar onde encontrei as pessoas mais acolhedoras na minha vida! Nunca me senti tão amada como pessoa, como naquele lugar.

Eles me apoiavam tanto que eu relutava contra minha essência feminina, diante do desejo de ser um sacerdote, servir à Deus e aquele povo simples e sofredor. Se eu pudesse ser sacerdotisa, jamais iria querer ser outra coisa na minha vida, a não ser servir a Igreja Católica.

Na Itália durante seu seminário teve a certeza de que não era apenas um jovem gay, e sim de fato uma mulher e sentia-se no corpo errado. Como foi entender esta questão?

Minha ida ao seminário na Itália, fez eu me encontrar comigo mesma e no ritmo de oração intenso que tinha lá, Deus me fez entender que Ele me amava do jeito que eu era e que havia me feito e me construído daquela forma. Eu tinha que buscar minha felicidade e realização.

 Não podia mais viver o personagem que vivia! Eu era uma mulher que interpretava um homem e ficava sempre atenta para não dar na cara. Nunca podia ser eu mesma e tinha sempre que disfarçar óbvio, no seminário e na vida. Comecei pedir sinais para Deus sobre o que deveria fazer, e diante das coisas que foram me ocorrendo, tomei a iniciativa de retornar ao Brasil e começar minha transição hormonal.

Como ficou sua relação pessoal com Deus, ou sua religiosidade após assumir-se mulher?

Foi tudo muito difícil porque amava muito o seminário e sentia realmente que tinha vocação para servir a Igreja Católica, não era feliz como pessoa no âmbito do gênero, mas minha relação com Deus sempre foi de muita fé!

 Ele sempre foi minha base, mais que minha própria família até, e eu estou em pé hoje firme e forte, graças a essa força divina e misericordiosa, que me sempre esteve do meu lado.

Esse momento de transição é muito doloroso e por isso muitas se entregam às drogas e ao álcool, então é preciso muito apoio, compreensão e discernimento para conseguir superar todas as barreiras e dificuldades. Quem tem Deus como apoio passa por tudo isso de uma forma, e quem não tem a fé como refúgio por exemplo, acaba por ter que encontrar forças de outras formas.

TRANSIÇÃO: Adequação e entrelaçamento sadio da alma com o corpo e o equilíbrio da mente.

Fale um pouco como foi este processo de transição?

Quando retornei ao Brasil, já vim decidida acabar com essa farsa de viver um personagem, de ser um rapaz que nunca fui, então botei para fora aquela mulher q existia dentro de mim e aos poucos fui adequando meu corpo com minha alma!  Deixei os cabelos crescerem, comecei tomar hormônios e dei todas minhas roupas masculinas para adquirir as roupas que sempre quis usar e não podia. Me parecia que ia ser muito complicado este primeiro momento de transição, mas foi tudo tão natural que parecia que sempre tinha sido mulher!

 Fiquei assustada quando eu descobri o que era mesmo o preconceito. Já apanhei na rua de 3 homens grandes e fortes que a princípio achei que iriam roubar minha carteira e celular, mas não. O ato foi simplesmente para me espancar e humilhar, pois eles rasgaram minhas roupas e me deram vários socos na cabeça e não levaram nada. Mas isso não me fez desistir e segui em diante.

É difícil o acesso a tratamentos médicos como reposição hormonal e afins, para mulheres trans?

Em SP, existe pelo SUS um departamento especializado no tratamento de pessoas trans, mas em outros lugares é bem complicado.  Aqui em Balneário Camboriú, onde moro atualmente, não tem e eu teria que passar por uma consulta com um clínico geral e tentar o encaminhamento com um endocrinologista e ele verificar a possibilidade de tratamento, e nem todos enxergam que nós temos essa necessidade. Atualmente faço a terapia hormonal por conta própria!

Teve apoio da sua família?

Sim, menos do meu pai que até hoje não fala comigo, mas o restante da família sempre soube que desde pequena era uma criança diferente e hoje sou feliz.

A TRAVESTI MARGINALIZADA: O Mercado de Trabalho e as dificuldades de se encaixar socialmente.

Como sabemos o mercado de trabalho é muito traiçoeiro para todos aqueles que não se encaixam, como mulher trans o que sentiu quando decidiu que estava pronta para enfrentar o mundo corporativo, e quais foram as dificuldades que encontrou?

Nós, pessoas trans, somos vistos como aberrações por muitos e as empresas não querem contratar pessoas trans de jeito nenhum!

Uma certa vez entreguei um currículo numa sorveteria.... Me chamaram para fazer o treinamento e quando descobriram que eu era uma trans, me mandaram embora imediatamente.

Hoje eu trabalho como auxiliar de escritório e hoje com os documentos retificados, com nome e gênero adequados, foi mais fácil encontrar um emprego. Lá também descobriram que eu era trans após um tempo e meu gerente me chamou em particular e perguntou “Por que você não me tinha falado antes?”, respondi se havia a necessidade de dizer e ele sem graça disse não.

 Achei que iria ser mandada embora novamente, mas já estou prestes a completar 4 meses nesta empresa e fiquei muito feliz pela oportunidade.

Atualmente conseguiu mudar seus documentos com o nome e gênero feminino. Conte como foi a sensação de poder finalmente sentir-se completa como mulher, inclusive legalmente, e quais as dificuldades que as pessoas trans encontram ao desejarem mudar seus nomes?

Nossa eu nasci de novo! Pela aparência e pela voz as pessoas não percebiam que era uma trans, mas espantavam quando viam meus documentos masculinos e hoje graças a Deus não preciso mais passar por esse constragimento. Antigamente era necessário entrar com um pedido na justiça para conseguir esse feito, mas agora com a nova lei aprovada pelo STF basta ir ao cartório, porém a lista de documentação é imensa, então é preciso ter paciência, mas é algo que mudou minha vida para sempre.

O que pensa sobre a Transfobia hoje no Brasil e o que espera para o futuro da classe LGBTQI+?

Infelizmente a Igreja Protestante, que deveria também propagar o amor e o respeito com os LGBTQI+, são os primeiros a disseminar ódio e o preconceito contra os gays e trans. Isso somente aumenta a violência em nome dos “bons costumes e da família”, por isso somos difamados constantemente! Existe mal caratismo por todo lado, então não podemos generalizar e achar que todos os transexuais são pessoas ruins, e há ainda na cabeça de todos o estereótipo da “Travesti de rua”, que é prostituta e ladra, mas ninguém sabe o que ela passou e porque faz ou fez tais coisas.

Eu me considero uma cidadã do bem e quero apenas ser respeitada, como todas as outras pessoas.

A transexualidade diz respeito à condição do indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento, o que faz surgir a necessidade de viver e ser aceito como sendo do sexo oposto, e a palavra de ordem nos hoje é ‘luta’!

 Estamos em tempo de lutar para viver, para ocupar espaços, para que todas as pessoas possam viver dignamente. Em 17 maio de 1990, data mundial de combate à LGBTfobia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atestou que a homossexualidade não pode ser considerada doença e ninguém tem que ser curado por ser lésbica, gay, bissexual, transexual, travesti ou intersexo.

Devemos refletir cada vez mais sobre em que sociedade queremos e merecemos viver, e lutar sim pelo direito e pela garantia à vida destas pessoas é dever de todos. Deixo aqui um apelo para todos aqueles que leram estas linhas acima: Não deixem de denunciar crimes de homofobia e transfobia, pois toda vida é preciosa e merece ser protegida.  

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Escrito por:

Ana Medioli

Ela é bruxa, publicitária e sonha em ser mãe de família, mesmo tendo um monte de tatuagens pelo corpo, uma vida não tão regrada assim, e jura que segunda começa a dieta, sempre! Aos 27 anos já se mudou mais de 10 vezes em SP, se considera uma cigana na cidade grande e acredita de verdade que a arte vai salvar todos nós do fim do mundo.
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