Queer Eye é o Reality que a gente não sabia que precisava

Ted Allen, Jai Rodriguez, Carson Kressley, Thom Filicia, and Kyan Douglas in "Queer Eye."

Inspirado nesse modelo, em 2018, Queer Eye foi lançada pela Netflix com um novo grupo de fabulosos e um conceito muito mais profundo que a original. A premissa ainda é a mesma, mas desta vez os fabulosos passam uma semana inteira com o hero (é assim que se referem aos participantes). Os escolhidos não são necessariamente héteros e a mudança, ainda que inclua estilo, vai muito além do superficial.

Em 2003, Queer Eye serviu ao seu papel. O simples conviver de héteros com gays já era considerado inovador e desafiador. Esse fab five alimentava estereótipos de “bicha má” e que que adoram dar aquelas “agulhadas”. O público, já acostumado com essa apresentação, logo caiu nas graças do reality e se divertia com as tiradas engraçadas e às vezes maldosas do programa.

A versão de 2018 veio repensada, abordando problemas atuais e muito mais empática com o público. O novo Fab Five, composto por Antoni (alimentação), Karamo (cultura), Tan (moda), Jonathan (groom) e Bobby (arquitetura) não se encaixam nos estereótipos da mídia. Eles vêm para muito além de transformar o participante: também trabalham a intolerância e conceitos conservadores do público.

Cada episódio traz uma lição, alguns especialmente fortes para a nossa sociedade. Logo no primeiro - “Feiura não tem conserto” - conhecemos Tom, um motorista de caminhão solitário que não acredita que pode ser bonito, mas essa beleza alcança todos os sentidos e o trabalho do Fab Five é delicado. Nessa edição não existem as agulhadas gratuitas e o contraste de Tom com seus mentores é surreal. Era inimaginável ver um caminhoneiro americano de 50 anos tendo sua pele, cabelo e barba cuidadas por um especialista e fazendo compras com um grupo de amigos gays. Quebra-se aí o primeiro estereótipo.

Durante os episódios, eles tiram um homem gay do armário, ajudam o nerd a conviver com os amigos, uma família evangélica a lidar com seus filhos e mudam o olhar de todos sobre a relevância da sexualidade. 

Um dos momentos mais intensos da série acontece no episódio 3, “Dá para Conciliar”, quando o Fab 5 ajuda um ex-fuzileiro a se repaginar, Cory é policial num subúrbio americano. Na sua garagem tem enfeites da eleição do Trump e vemos Antoni brincar com o boné “Make America Great Again” (slogan da campanha de Donald). O maior atrito do episódio é de Karamo, homem gay negro que viu a violência policial à sua comunidade com o policial. Em certo momento do episódio, ele tem um tempo a sós com Cory no carro e depois de uma longa conversa vê o participante com muito mais aceitação.

Além da clara luta contra a homofobia, a série trabalha outro conceito; a fragilidade da heterosexualidade masculina. Todos os homens que participam do programa tem um preconceito, ou até mesmo uma ideia machista de vida. Isso afeta sua aparência e até sua saúde física e mental. “Homem não chora, não faz cabelo, não usa maquiagem”. Todas essas ideias, intrínsecas para esses homens desde criança, caem por terra para os participantes ao final do quinto dia, quando vemos o  hero repaginado e chorando de emoção.

O conceito de masculinidade tóxica é tratada na série de uma forma muito inteligente. Não há agressividade no assunto, mas é mostrado o quanto isso afeta a vida dos homens e de  quem convive com eles.

Homofobia, machismo, racismo e tantos outros problemas da sociedade contemporânea são tratados de forma dinâmica, divertida e emocionante nessa série surpreendente, que traz um novo conceito ao gênero. E talvez o sucesso na Netflix  possa trazer uma nova leva de realities muito mais preocupados com temas atuais. 

Nessa sexta, dia 15, tem a estreia da segunda temporada. Se você ainda não viu, essa é a dica perfeita para maratonar no final de semana!

Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
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